Congo – ” Esta é a história de um fracasso”

20 Jun , 2018  

Artigo publicado no jornal angolano ‘Novo Jornal’

 

Congo – “Esta é a história de um fracasso”

“Esta é a história de um fracasso” foi como Che Guevara iniciou as páginas do seu diário sobre a sua missão junto da guerrilha na República Democrática do Congo. “Uma guerrilha pessimista e perdida por causa do dinheiro, da bebida e do luxo, descrevia um Che, em 1964, desesperado e desanimado, nas cartas que enviava a Fidel Castro.

Infelizmente, a mesma frase pode ser usada para toda a história congolesa. O país não teve ainda momentos de felicidade ou de glória. Dos três presidentes que o país já teve,  dois foram assassinados e um morreu no exílio. Se a morte não tem sido simpática para os presidentes, para o povo é a vida que o não tem sido. O país está nos últimos lugares do índice de desenvolvimento humano – 77% dos 80 milhões de congoleses vive abaixo da linha de pobreza do Banco Mundial. Cerca de 37 milhões não tem acesso a água potável, um número especialmente preocupante devido aos casos de ébola. A população jovem, com menos de 25 anos, representa 60% do total. No entanto, os jovens congoleses, ao contrário da maioria do mundo, quase não têm acesso a um bem essencial do seculo XXI – a Internet só chega a 4% da população. Viajar entre províncias é quase impossível devido à inexistência de estradas, uma política que acabou por ser uma estratégia para dificultar a chegada das forças inimigas à capital. O gigante país tem, por isso, pouco mais de 2000 quilómetros de estrada pavimentada.

O fracasso da política e do desenvolvimento do Congo foi por vezes negado ou falseado no jogo da diplomacia internacional.

Foi assim na governação de Mobutu apresentada, durante anos, no Ocidente como um sucesso. Não era o caso, claro. Mas vivia-se a Guerra Fria e o mundo Ocidental precisava de um líder africano como seu amigo. Mobutu desfilava em visitas oficiais junto dos presidentes dos Estados Unidos e de países europeus. Mobutu era apresentado por Mitterrand, por Bush, pela Thatcher, por Mário Soares, como ‘Mon ami President’. A falta da liberdade, de democracia e as mortes e perseguições eram convenientemente esquecidas nos elogios ao grande líder africano.

A Guerra Fria terminou e a guerrilha venceu as forças Mobutu. O mundo e as alianças realinhavam-se. Em 1996, Laurent Kabila, apoiado pelos países da região, assumiu a presidência e o velho Mobutu morreu no exílio. Kabila foi assassinado em 2001 pela sua própria guarda. Dias antes teria assistido ao fuzilamento de 47 das suas crianças soldado. Eram as suas próprias crianças-soldado os seus maiores inimigos, facto negado por ele próprio por se achar a figura pai destes militares de palmo e meio.

Chegámos, assim, ao segundo momento em que o mundo precisava e queria à força que fosse um momento de sucesso da história congolesa: eram as primeiras verdadeiras eleições em 46 anos. Estávamos em 2006 e eu integrava a larga equipa de observação eleitoral das Nações Unidas/UE. Havia um entusiasmo geral, apesar do risco de violência no leste do país devido à presença de guerrilhas e grupos armados.  O mapa na sala de logística da nossa missão dividia por cores os locais de risco e não-risco de violência, os pontos vermelhos de símbolo de alto risco quase que ganhavam aos sem-riscou ou reduzido.

Estas eleições tinham de ser de sucesso. A diplomacia regional e internacional precisava deste caso de sucesso. Existia a esperança de ser um novo começo. E foi um sucesso tendo em conta a história e as condições do país. Todo o país votou. Não houve incidentes maiores. Houve só um acidente, numa única aldeia, insignificante tendo em conta a dimensão do país. Só nessa aldeia não se votou, pois a população destruiu todos os locais de voto. A polícia congolesa respondeu com tiros aos paus e às catanas. A equipa da ONU (eramos três) ficou mais de 24 horas cercada pelo combate entre a polícia e a população. Mas, como foi repetidamente explicado, foi só uma aldeia e Kinshasa nem este incidente queria revelar. Havia muitas centenas de feridos, mas mortos seriam ‘apenas’ um ou dois. Continuava a ser mais importante não prejudicar a versão do sucesso. Soube depois, já em Kinshasa, que, estava eu ainda sob os tiros, já a Eurodeputada Ana Gomes dizia, na capital do Congo, que estava tudo controlado e que a observadora portuguesa (eu) estava bem. Era sintoma da obsessão dos vários autores em ter uma história de sucesso e a errada teimosia em dividir os actores políticos entre bons e maus.

As eleições davam a vitória a Joseph Kabila, mas Bemba contestava os resultados.

Ainda com as nódoas negras dos tais incidentes rotulados oficialmente de não-importantes, testemunhei na capital a crescente tensão e receio de violência com o anúncio dos resultados. Sabia-se que apoiantes de Bemba começavam a organizar-se pelos bairros da cidade. Temiam-se confrontos. Foram horas e dias de tensão crescente e de incerteza. Felizmente não houve violência. O sucesso podia ser celebrado. Faltou dizer que o sucesso da eleição foi a violência ter sido controlada e isso foi graças ao candidato derrotado. Bemba não só não incitou a violência como apelou à calma. É este mesmo Bemba que, após 10 anos, volta ao país e que, à partida, poderá ser candidato.

Apesar dos consecutivos adiamentos das eleições, espera-se que se realizem ainda este ano.  A seis meses das eleições não se sabe ainda se Kabila irá insistir em ser candidato e se Bemba poderá ser candidato.  Temos por isso em aberto três cenários possíveis de combinaçao: Os dois candidatos serem candidatos ou dos dois apenas um deles ser candidato.  Se Bemba for candidato e se pretender reconstruir o país deverá congregar e negociar com outras das forças da oposição. De recordar que os partidos no Congo não são como em Angola, não há partidos fortes nem no governo nem na oposição. Fruto da história do país a política faz-se sobretudo à volta de um mão cheia de indivíduos com capacidade de uso da ‘força’. Até agora em toda a história do país ganharam as armas, nunca as ideias. Esta próxima eleição será ainda nesta premissa. Se acontecer sem violência será já um sucesso, mas não se exagere na celebração do sucesso e no rotular do vencedor como o salvador.  Não será santo, será apenas momentaneamente menos diabo que os outros.

Para já, Kabila parece cada vez mais impopular e os países vizinhos, mesmo os que eram seus amigos, dão sinais de que a paciência terminou. Nada de novo. A história congolesa ensina que os presidentes não são eternos e que as suas amizades internacionais rapidamente viram as costas ao primeiro vento contrário.

O jogo político para as próximas eleições já começou e nesta fase vence a oposição e a Igreja, perde Kabila. O xeque-mate ocorreu em 2016 com a vaga de manifestações contra Kabila. Foram dias de violência descontrolada. Os vencedores perderam dezenas de apoiantes que morreram nos confrontos, mas Kabila recuava na tentativa de fazer a mudança constitucional. O rumor da vontade de Kabila em  mudar a  constituicão para concorrer a mais um mandato existe até hoje, mas é mesmo por isso que é uma derrota, são dois anos em que não conseguiu passar de um rumor. Pode ser que a história do país fracassado tenha começado a mudar com esta pequena vitória.

 

Elisabete Azevedo-Harman, Politóloga e membro da equipa de observação eleitoral da ONU/UE às eleições da DRC em 2006

 

http://www.novojornal.co.ao/opiniao/interior/congo—esta-e-a-historia-de-um-fracasso-55639.html

 

Código de ética parlamentar da Assembleia Nacional Popular da Guiné-Bissau

11 Mai , 2018  

,

Tive o prazer e o privilégio de ser uma das autoras do primeiro manual de ética parlamentar elaborado nos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa. A Assembleia Nacional Popular da Guiné-Bissau (ANP) com o Pro PALOP TL ISC lançou o “Manual Ética e conduta parlamentar com N’tori Palan”. O Manual recorre às personagens históricas de banda desenhada guineense para falar de ética parlamentar. O Manual está redigido em língua portuguesa e em crioulo.
O fortalecimento da democracia e a aproximação do parlamento aos cidadãos são os objetivos do Manual de Ética Parlamentar, que se destina não só aos parlamentares e funcionários parlamentares, mas também a toda a sociedade guineense.

A elaboração do Manual resulta do trabalho conjunto da Assembleia Nacional, da equipa do Pro PALOP TL ISC e de artistas guineenses, e contou também, com o contributo de parlamentares, com especial participação das mulheres parlamentares.

More…

Locais de repressão da ditadura portuguesa

30 Abr , 2017  

Os locais ( prisões, campos, sedes da PIDE) onde o regime não democrático que vigorou em Portugal reprimia e torturava. Existiam tanto em Portugal como nas ‘províncias ultramarinas/colónias’. Dói-me muito que estes locais não sejam preservados e usados como lição de memória.
Em Cabo Verde o campo de concentração do Tarrafal, em Mocambique a ‘Vila Algarve’ sede da PIDE, e em Angola – prisão São Nicolau onde se prendia o pai/mãe e toda a família ! Existem Ainda hoje as crianças de São Nicolau que cresceram na prisão ao lado dos pais e testemunharem a humilhação que o pai/mãe passavam ( uma dessas crianças é um jornalista angolano por quem tenho a maior admiração, Ismael Mateus. já pedi ao Ismael para nos escrever a sua experiência. Não o faz. Nem imagino o que deve doer e por isso insisto, mas não insisto. Hesito. ) Passaram por estes locais portugueses, guineenses , angolanos, moçambicanos… devemos ter vergonha de não respeitar a memória destas vítimas. A estória de cada vítima é também a nossa história. Triste e sem honra, mas é a nossa história. A honra do povo vê-se pela coragem de contar toda a história e não só os momentos dos heróis, os carrascos fazem também parte dessa história.

Preço de sorrir nos hotéis de luanda

30 Abr , 2017   Video

,

Descobri que sorrir parece ser um problema nos hotéis. Entro na sala do pequeno-almoço e passo pelo ritual de dizer o número do quarto. O senhor que me pergunta é o mesmo há muitos dias..eu sou a mesma exactamente na mesma quantidade de dias e todos esses dias tenho que dizer e muitas vezes repetir o número quarto que é o mesmo número exactamente na mesma quantidade de dias em que eu e o senhor da porta temos este diálogo.
Hoje acordei rabugenta. Não me apetecia ter o demorado ritual do número do quarto. Mas não!
Hoje voltou a pedir e pediu para repetir. Sentei-me de maneira a observar a porta. E a minha suspeita era real. muitos dos outros clientes passavam sem ser interrogados. Os clientes ( são quase todos homens de negócios ou pelo menos parecem) passam e sentam-se sem ser preciso trocarem uma palavra com o fiscal da porta. Perguntei a um dos empregados porquê que eu era alvo de interrogatório todo santo dia… e veio a resposta ‘é que a senhora é simpática’ , – simpática ?!!! explicou que é porque chego a sorrir.
A maioria dos outros não, chegam de cara de poucos amigos.
Ora bolas!! Sorriso tem preço! Mas prefiro continuar a responder ao interrogatório e continuar a sorrir.
( e cá estou a escrever e a rir de mim própria num hotel em luanda)

Olhares : Mulheres de São Tomé e Príncipe

3 Mar , 2017  

, ,

IMG_1609

A coleção das fotos e textos é o resultado do trabalho amador e feito apenas pelo luxo do prazer do fazer.
As fotos foram tiradas em 2016 nas duas ilhas de São Tomé e Príncipe. Os textos são semi-reais mas resultam das horas de conversas que tivemos com muitas das mulheres.
Autoras:
Claudia correia. Formada em gestão de empresas. Empresária e trabalhadora de números. Mas nas horas vagas e por paixão tira fotografias. Sobretudo gosta de fotografar pessoas tal como são.
Elisabete azevedo-harman. É politologa e professora de ciência política. Vive por países em África. Não é escritora. Não é jornalista. Mas gosta de contar estórias. Sobretudo estórias de pessoas reais e que fazem a história dos países.

IMG_1609 IMG_1610 IMG_1611 IMG_1612 IMG_1613 IMG_1614 IMG_1615 IMG_1616 IMG_1617 IMG_1618 IMG_1619 IMG_1620 IMG_1621

 

Onde estou ? Em Cabo Verde

19 Fev , 2017   Video

IMG_1439Afinal onde andas ?
Alguns de vocês confusos com as minhas andanças estão a perguntar em privado…
ora já não estou em Bissau ( já com sodade ) e estou aqui na ilha que a Mayra diz ser de algodão e saia de chita…

Pico Mocambo o bar ‘cheers’ em São Tomé: onde todos sabem o teu nome

5 Jan , 2017   Video

img_0344img_0337 img_0341 img_0343 Uma das nossas ( minha geração e afins) séries televisivas era o Bar Cheers. Um bar em Boston onde ‘where all knew your name’.  As personagens chegavam ao bar uma a uma e sentavam-se como se estivessem na sua sala entre amigos. Nunca encontrei nenhum bar com o ambiente do ‘cheers’. Devem existir mas nunca os vi. Nestes dias encontrei o meu bat cheers em São Tomé. Só me apercebi da descoberta quando hoje tentava explicar onde iria à noite se tivesse sem companhia… o dono Gudi não é o d Juan do Cheers;) é um anfitrião que acolhe cada cliente como se fossem o único cliente do mundo. A Ademiza não é o barman tolo do Cheers… fica atras do balcão atenta aos sinais do Gudi para mais ‘gravanilha’. A gravanilha é a bebida emblema, existe de cacau, gengibre e o resto descubram o que é por vocês 😉

se vier a São Tomé não pode deixar de vir a este bar numa antiga casa colonial onde basta uma vez ‘para todos saberem o teu nome’.

img_0305

‘Sonhos’ no Monte Café

4 Jan , 2017  

img_0318

img_0318


São Tomé e Príncipe.
“Quem têm sonhos não têm recursos
Quem têm recursos não tem sonhos ”
Monte café onde a criança não pede ‘doce, doce’. Sempre que posso gosto de ir ao Monte Café, a primeira vez por curiosidade depois passei a ir por respeito pelos jovens da comunidade. O turista é recebido pelos jovens da associação para a promoção da comunidade. Não são jovens importados, são os próprios filhos da roça que agora sem o trabalho dos seus pais, avôs, tios, mães resolveram ‘fazer alguma coisa’ e fizeram. Organizaram-se em cooperativa para a produção e a associação tenta preservar o património e promover o lugar. Mas a parte que mais respeito é que tudo se passa em harmonia com o resto dos moradores.
Em todo o São Tomé os turistas (sobretudo portugueses) levam doces para as crianças. Apesar dos apelos para que não o façam ainda é uma pratica do ‘turista’ que acha exótico ter crianças a gritar ‘doce, doce’.
No Monte Café ninguém pede nada. As crianças ao verem os turistas continuam a brincar e podem sorrir mas não nos ligam. O segredo está nos jovens que gerem a associação que proibiram os turistas de entregar doces. Simples.
Sempre que vou ao Monte Café conheço um dos 10 jovens da direção da Associação. Hoje foi a vez do Gege. O gege fala com calma e elegância. Explica a história da roça e a sua estória.
Gege mostra o edifício decadente que já foi a casa do patrão da roça e depois da independência foi o infantário do Gege. O edifício agora segura-se apenas por paredes frageis que denunciam a morte para breve da velha casa. A velha casa que já foi linda e poderosa agora apenas uma quase-ruína. Apesar de abandonada mantém-se em pé. Pergunto ao Gege porque não a recuperam e recebo a resposta ‘Quem têm sonhos não têm recursos
Quem têm recursos não tem sonhos”… ele tem o sonho. Sorri e garanti-lhe ( não sei bem porquê e se com razão ) “é sempre melhor pertencer aos que sonham’. img_0286 img_0287