Locais de repressão da ditadura portuguesa

30 Abr , 2017  

Os locais ( prisões, campos, sedes da PIDE) onde o regime não democrático que vigorou em Portugal reprimia e torturava. Existiam tanto em Portugal como nas ‘províncias ultramarinas/colónias’. Dói-me muito que estes locais não sejam preservados e usados como lição de memória.
Em Cabo Verde o campo de concentração do Tarrafal, em Mocambique a ‘Vila Algarve’ sede da PIDE, e em Angola – prisão São Nicolau onde se prendia o pai/mãe e toda a família ! Existem Ainda hoje as crianças de São Nicolau que cresceram na prisão ao lado dos pais e testemunharem a humilhação que o pai/mãe passavam ( uma dessas crianças é um jornalista angolano por quem tenho a maior admiração, Ismael Mateus. já pedi ao Ismael para nos escrever a sua experiência. Não o faz. Nem imagino o que deve doer e por isso insisto, mas não insisto. Hesito. ) Passaram por estes locais portugueses, guineenses , angolanos, moçambicanos… devemos ter vergonha de não respeitar a memória destas vítimas. A estória de cada vítima é também a nossa história. Triste e sem honra, mas é a nossa história. A honra do povo vê-se pela coragem de contar toda a história e não só os momentos dos heróis, os carrascos fazem também parte dessa história.

Preço de sorrir nos hotéis de luanda

30 Abr , 2017   Video

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Descobri que sorrir parece ser um problema nos hotéis. Entro na sala do pequeno-almoço e passo pelo ritual de dizer o número do quarto. O senhor que me pergunta é o mesmo há muitos dias..eu sou a mesma exactamente na mesma quantidade de dias e todos esses dias tenho que dizer e muitas vezes repetir o número quarto que é o mesmo número exactamente na mesma quantidade de dias em que eu e o senhor da porta temos este diálogo.
Hoje acordei rabugenta. Não me apetecia ter o demorado ritual do número do quarto. Mas não!
Hoje voltou a pedir e pediu para repetir. Sentei-me de maneira a observar a porta. E a minha suspeita era real. muitos dos outros clientes passavam sem ser interrogados. Os clientes ( são quase todos homens de negócios ou pelo menos parecem) passam e sentam-se sem ser preciso trocarem uma palavra com o fiscal da porta. Perguntei a um dos empregados porquê que eu era alvo de interrogatório todo santo dia… e veio a resposta ‘é que a senhora é simpática’ , – simpática ?!!! explicou que é porque chego a sorrir.
A maioria dos outros não, chegam de cara de poucos amigos.
Ora bolas!! Sorriso tem preço! Mas prefiro continuar a responder ao interrogatório e continuar a sorrir.
( e cá estou a escrever e a rir de mim própria num hotel em luanda)

Olhares : Mulheres de São Tomé e Príncipe

3 Mar , 2017  

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A coleção das fotos e textos é o resultado do trabalho amador e feito apenas pelo luxo do prazer do fazer.
As fotos foram tiradas em 2016 nas duas ilhas de São Tomé e Príncipe. Os textos são semi-reais mas resultam das horas de conversas que tivemos com muitas das mulheres.
Autoras:
Claudia correia. Formada em gestão de empresas. Empresária e trabalhadora de números. Mas nas horas vagas e por paixão tira fotografias. Sobretudo gosta de fotografar pessoas tal como são.
Elisabete azevedo-harman. É politologa e professora de ciência política. Vive por países em África. Não é escritora. Não é jornalista. Mas gosta de contar estórias. Sobretudo estórias de pessoas reais e que fazem a história dos países.

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Onde estou ? Em Cabo Verde

19 Fev , 2017   Video

IMG_1439Afinal onde andas ?
Alguns de vocês confusos com as minhas andanças estão a perguntar em privado…
ora já não estou em Bissau ( já com sodade ) e estou aqui na ilha que a Mayra diz ser de algodão e saia de chita…

Pico Mocambo o bar ‘cheers’ em São Tomé: onde todos sabem o teu nome

5 Jan , 2017   Video

img_0344img_0337 img_0341 img_0343 Uma das nossas ( minha geração e afins) séries televisivas era o Bar Cheers. Um bar em Boston onde ‘where all knew your name’.  As personagens chegavam ao bar uma a uma e sentavam-se como se estivessem na sua sala entre amigos. Nunca encontrei nenhum bar com o ambiente do ‘cheers’. Devem existir mas nunca os vi. Nestes dias encontrei o meu bat cheers em São Tomé. Só me apercebi da descoberta quando hoje tentava explicar onde iria à noite se tivesse sem companhia… o dono Gudi não é o d Juan do Cheers;) é um anfitrião que acolhe cada cliente como se fossem o único cliente do mundo. A Ademiza não é o barman tolo do Cheers… fica atras do balcão atenta aos sinais do Gudi para mais ‘gravanilha’. A gravanilha é a bebida emblema, existe de cacau, gengibre e o resto descubram o que é por vocês 😉

se vier a São Tomé não pode deixar de vir a este bar numa antiga casa colonial onde basta uma vez ‘para todos saberem o teu nome’.

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‘Sonhos’ no Monte Café

4 Jan , 2017  

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São Tomé e Príncipe.
“Quem têm sonhos não têm recursos
Quem têm recursos não tem sonhos ”
Monte café onde a criança não pede ‘doce, doce’. Sempre que posso gosto de ir ao Monte Café, a primeira vez por curiosidade depois passei a ir por respeito pelos jovens da comunidade. O turista é recebido pelos jovens da associação para a promoção da comunidade. Não são jovens importados, são os próprios filhos da roça que agora sem o trabalho dos seus pais, avôs, tios, mães resolveram ‘fazer alguma coisa’ e fizeram. Organizaram-se em cooperativa para a produção e a associação tenta preservar o património e promover o lugar. Mas a parte que mais respeito é que tudo se passa em harmonia com o resto dos moradores.
Em todo o São Tomé os turistas (sobretudo portugueses) levam doces para as crianças. Apesar dos apelos para que não o façam ainda é uma pratica do ‘turista’ que acha exótico ter crianças a gritar ‘doce, doce’.
No Monte Café ninguém pede nada. As crianças ao verem os turistas continuam a brincar e podem sorrir mas não nos ligam. O segredo está nos jovens que gerem a associação que proibiram os turistas de entregar doces. Simples.
Sempre que vou ao Monte Café conheço um dos 10 jovens da direção da Associação. Hoje foi a vez do Gege. O gege fala com calma e elegância. Explica a história da roça e a sua estória.
Gege mostra o edifício decadente que já foi a casa do patrão da roça e depois da independência foi o infantário do Gege. O edifício agora segura-se apenas por paredes frageis que denunciam a morte para breve da velha casa. A velha casa que já foi linda e poderosa agora apenas uma quase-ruína. Apesar de abandonada mantém-se em pé. Pergunto ao Gege porque não a recuperam e recebo a resposta ‘Quem têm sonhos não têm recursos
Quem têm recursos não tem sonhos”… ele tem o sonho. Sorri e garanti-lhe ( não sei bem porquê e se com razão ) “é sempre melhor pertencer aos que sonham’. img_0286 img_0287

Casa Almada Negreiros – São Tomé e príncipe

3 Jan , 2017  

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Reportagem RTP sobre a Casa Almada Negreiros

No meio de São Tomé e Príncipe existe a casa onde nasceu o pintor/escritor/poeta Almada Negreiros. A casa é agora um restaurante que poderia estar em qualquer avenida de Nova Iorque. Comida fantástica. É ainda mais impressionante por ser gerida por jovens da comunidade. Merece 5 estrelas e uma sexta estrela para a vista e a calma do lugar.  Os 2 jovens sobem uns 100 degraus para trazer cada prato que apenas explicam quando todo o cliente ( só tem 4 mesas) tem a comida em frente;)

Agora é  um sítio mágico com toque romântico… de certeza bem diferente da roça onde Almada nasceu no século XIX.

Aqui fica a biografia do Almada Negreiros ( fonte Blog truca.pt)

“José Sobral de Almada Negreiros, artista plástico e escritor, nasceu em 1893 em São Tomé e Príncipe, onde o pai era administrador do concelho da cidade. Estudou no colégio jesuíta de Campolide, para onde entrou em 1900, aos sete anos de idade, após a morte prematura da mãe, em 1896, e a partida definitiva do pai para Paris nesse mesmo ano. Aí realizou os jornais manuscritos “República”, “Mundo” e “Pátria”. Após o encerramento do colégio, frequentou entre 1910 e 1911, o liceu de Coimbra, de onde passou para a Escola Nacional de Belas Artes, em Lisboa. Em 1915, integrado no grupo “Orpheu”, centrou a sua polémica ideológica numa crítica cerrada a uma geração e a um país que se deixava representar por uma figura como Júlio Dantas. Mostrando se convicto de que «Portugal há de abrir os olhos um dia», lançou, em 1917, um “Ultimatum Futurista às Gerações Portuguesas do Século XX”, precavendo as contra a «decadência nacional», em que a «indiferença absorveu o patriotismo».
Entre 1919 e 1920 retomou os estudos de pintura em Paris. De regresso a Lisboa, adquiriu uma serenidade bem expressa na sua afirmação de que «entre mim e a vida não há mal entendidos». Mas, em 1927, de novo desgostoso com a falta de abertura do país às novas correntes ideológicas e culturais, foi para Madrid. Aí, como já antes o fizera em Lisboa, a par da sua actividade nas artes plásticas, colaborou com a imprensa. Com o agravamento da crise económica e social espanhola, após a proclamação da República, Almada regressou a Lisboa, em Abril de 1932. À consciência nacional que Paris lhe trouxera acrescentava agora uma «consciência ibérica culturalmente definida por valores líricos de uma certa lusitaneidade». Em 1934, casou com a pintora Sara Afonso.
Almada Negreiros, conhecido como «Mestre Almada», colaborou nas revistas de vanguarda “Orpheu” (de que foi co fundador), “Contemporânea”, “Athena”, “Portugal Futurista” e “Sudoeste” (que dirigiu). Participou em exposições de arte, nomeadamente na I Exposição dos Humoristas Portugueses (1911), a primeira do modernismo nacional. Como artista plástico, são de realçar os seus murais na gare marítima de Lisboa, os trabalhos para a Igreja de Nossa Senhora de Fátima (mosaico e pintura) e o célebre retrato de Fernando Pessoa. Pintor do advento do cubismo, a sua actividade artística estendeu se ainda à tapeçaria, à decoração e ao bailado.
Como escritor, publicou peças de teatro (“Antes de Começar”, 1919; “Pierrot e Arlequim”, 1924; e “Deseja se Mulher”, 1928); o romance “Nome de Guerra” (escrito em 1925, mas publicado apenas em 1938, e que é considerado um dos romances fundamentais do século XX português e o primeiro em que se manifesta já a arte modernista); os poemas “Meninos de Olhos de Gigante” (1921), “A Cena do Ódio” (escrito em 1915 durante a Revolução de Maio contra a ditadura de Pimenta de Castro e publicado apenas em 1923, que consiste numa descrição violenta do Portugal da época, em que se exprime uma dialéctica de amor ódio que seria a tónica dominante das relações do artista com a pátria), “As Quatro Manhãs” (1935) e “Começar” (1969); e uma série de textos de crítica e polémica, dispersos pelas publicações em que colaborava. De entre estes, destacam se o “Manifesto Anti Dantas” (1915), verdadeiro libelo de reacção ao ambiente cultural estagnado e academizante da época, o “Manifesto” (1916), o “Ultimatum Futurista às Gerações Portuguesas” (1917) e “A Invenção do Dia Claro” (1921), conferência sob a forma de poema. A sua obra representa uma síntese, única na sua geração, das tendências modernistas e futuristas de então, não apenas por, como artista, ser multifacetado, mas também pela sua capacidade de fusão e conjugação, nas letras e na pintura, das vertentes plástica, gráfica e poética. Almada Negreiros faleceu em 1970.
Em 1970 e 1988, foram publicadas duas edições de “Obras Completas de Almada Negreiros”, comemorando a última o centenário do autor.
Artista da novidade e da provocação, em demanda de «uma pátria portuguesa do século XX», atento à busca de uma unanimidade universal e profundamente marcado pela herança e o sentido da civilização europeia, foi uma das grandes figuras da cultura portuguesa do século XX. Artisticamente activo ao longo de toda a sua vida, o seu valor foi reconhecido por inúmeros prémios.”