Alergias

19 Ago , 2013   ,

A TAP foi simpática e ofereceu-me o jornal Expresso. Na verdade, quando estou em Portugal compro o dito, resmungo comigo própria, mas lá carrego o jornal e leio com o luxo do tempo lento a beber um café numa esplanada no meu bairro.
Quando compro o jornal começo por ler os meus favoritos, Ana Cristina Leonardo, Nicolau Santos, Clara Ferreira Alves, Cristina Peres, o Monjardino e a parte internacional. Depois abro e fecho o jornal várias vezes, encontro de quando em quando boas surpresas, mas salto deliberadamente a página central Editorial e Opinião. Gosto e conheço pessoalmente o Martim Avillez e já lhe pedi desculpa por saltar a sua página. Ele e outros da página pagam o preço de integrarem a página a que chamo o ‘clube dos rapazes’. Resmungo para mim e em voz alta penso… Só neste país, ‘mas não há mulheres?’.


A minha alergia a esta página agravou-se há muito tempo ao ler o rapaz Henrique Raposo. O rapaz irrita-me com o seu sentido de humor parolo e a sua obsessão com as mulheres. Esforça-se para ser engraçado e politicamente incorrecto, o que o leva a ter como um dos seus tópicos preferidos, as mulheres. Como este sábado o jornal foi-me oferecido achei que a cavalo dado não se olha o dente… E lá li a página do clube dos rapazes… incluindo o moço Raposo. Contendo a minha alergia obriguei-me a ler a crónica até ao fim. O moço divaga sobre as bundas das mulheres portuguesas e como ele, coitado, tem sofrido ao vê-las tatuadas na praia. Grita em socorro para que nós, as mulheres portuguesas, nos deixemos disso. Fala de nós mulheres como peças de carne que passeamos na praia para o prazer/sofrimento deste e destes moços. Teoriza sobre o assunto, e ele, conhecedor de tudo e mais alguma coisa, explica-nos que o nosso país já foi um país de marialvas e nessa altura ele percebia e aceitava a rebeldia das tatuagens na bunda ou em qualquer outra parte do corpo… Agora – diz ele – não há justificação. Terminei o artigo e lembrei-me dos marialvas das obras que quando uma mulher passa dizem ‘Oh jeitosa’ entre outras expressões, muitas das expressões também incluem bunda. O artigo deste rapaz é exactamente o mesmo, com a diferença que aos rapazes das obras não temos que pagar para ouvir a sua brejeirice, não salpicam a sua brejeirice com pretensa análise histórica e social, não são pagos para escrever num dos jornais mais importantes do país, e sobretudo, apesar do mau gosto da brejeirice, apreciam as bundas. As bundas e as mulheres não os incomodam como a este rapaz. No fundo, o rapaz é como um marialva das obras, mas atrapalhado com as bundas e com as mulheres. Coitado, na verdade é um aspirante a marialva ou um marialva de meia-tigela.