Benguela. Angola. 18h10 do dia de ontem.

8 Mai , 2014   ,

Irei tentar registar assim o momento. Por regra, as minhas memórias não têm o dia, nem o ano e muito menos a hora. As minhas memórias são alérgicas à precisão do tempo. Recordo pessoas, frases, conversas, olhares, alegria, tristeza, mas a medida do tempo quase sempre desaparece. Ontem às 18h10, estive a comer maracujás no quintal da casa duma pessoa amiga. Liberta dos sapatos com os pés no chão e sentada ao lado duma cesta de maracujás, estava preparada para começar a saborear a conversa com o meu amigo. Conhecemo-nos há anos na Europa. Nunca lhe tinha perguntado, mas agora aqui na sua terra e no seu quintal perguntei como é que foi a viagem para a Europa. E veio a resposta, precisa com as horas e os dias.
Foi uma longa conversa com muita hora e dia, mais ou menos assim – ‘No dia x de 1991, bem cedo, antes das cinco da manhã, parti da aldeia. O meu pai achou que os mais velhos deveriam vir pra cidade. A guerra começou, a minha mãe e três irmãos já não puderam vir… Depois em 1994, tivemos x dias em que se pensou que a paz tinha chegado. Não chegou… Depois no dia x do mês x de 1999, parti para a Europa. Cheguei a Luanda às 14h50, o voo era só às 23h40… Fiquei no aeroporto. Pensei que não ia passar. Passei. Quando cheguei à sala de embarque não havia ninguém, pensei que algo estava errado. Só às 21h30 chegou outro passageiro. ‘ Por vezes a busca da hora exata era discutida entre ele e a sua memória e para que a contagem fosse precisa, as horas eram contadas pelos dedos. Fisicamente não saímos dos nossos lugares, mas foi uma longa viagem. Os nossos movimentos limitaram-se a apanhar os maracujás. Mas sem sair do quintal viajei desde a sua aldeia até às ruas europeias e segundo o relógio, só regressámos ao quintal mais ou menos às 20h35, quando chegou a fome do jantar.