Estórias da minha Páscoa

27 Mar , 2016  

O bandido-filosofo e o cabrito de nome Páscoa…. e como a culpa é uma otima defesa. Em direto da Cidade da Beira em Moçambique:
1- O bandido filósofo. Ontem cheguei à cidade da Beira. Esperava-me um almoço festim. Almoçou-se e depois cada um arrastou-se para o seu sofá e ficávamos ali a jiboiar. Um dos meus anfitriões diz ´e então lá em Portugal’ comem o quê na Páscoa. Respondi que não sabia bem mas achava que era cabrito. La ficávamos a ver um filme daqueles de televisão que se vê automaticamente quando faz 40 graus lá fora e o filme é usado como ponto de encontro para se ficar ali. De repente um anfitrião desapareceu. Passado uma hora oiço ‘mé mé mé’.

E lá regressa o AA (Anfitrião A) e diz ‘pronto já está, amanha temos cabrito’. Ainda eu estava a recompor-me que as minhas palavras se tinham transformado na chegada dum cabrito… quando tocam à porta. Era um ‘bandido filósofo- BF’ que tinha acabado de roubar o cabrito que tinha acabado de chegar. O BF mandou chamar o patrão da casa. O AB (anfitrião B) lá foi ao portão. E de casa eu ouvi ‘ mas esse é o nosso cabrito’. O BF confirmou e explicou que o cabrito fugiu e ele teve que correr quilómetros para apanhar o dito. Agora queria uma recompensa pela corrida. O AB disse ‘ mas o cabrito não saiu sozinho’… o BF sempre calmo, repetiu ‘senhor, está a ver o que eu corri. Para apanhar o seu cabrito.’. O AB avançou com 100 meticais. O BF mostrou-se ofendido e tirou 600 meticais do bolso, dizendo ainda agora vim do banco. O AB estava a ficar irritado, sai o AA para ajudar na negociação. A mim foram-me dadas instruções para não me mostrar, caso contrário o preço ao ver uma branca iria subir, segui tudo escondida atrás das cortinas. O AA oferece 200 meticais… o BF ofendido responde ‘ senhores, já não quero nada. Fui invadido por um sentimento de culpa. Apercebi-me agora que afinal estou a trazer este pobre cabrito para a morte. Não quero nem cabrito, nem dinheiro’. Disse isto sem largar o cabrito. O AB disse ‘você saiu-me cá um filosofo’ e deu-lhe 500 meticais. O BF aceitou o dinheiro largou o cabrito mas repetiu a virar as costas ‘ aceito o dinheiro mas não paga o sentimento de culpa que carrego’.
2- O cabrito de nome ´Páscoa’. Refeitos da dura negociação. Voltámos aos sofás. Bateram à porta e era o empregado dum amigo dos donos da casa que vinha trazer um cabrito. Chegava assim o cabrito 2. O primeiro já o empregado tinha silenciado e já estava na geleira. O cabrito 2 eu ajudei a levar para o quintal. Simpatizei com o cabrito e convenci os donos da casa em manter vivo o bicho. O bicho tem espaço, argumentei. Pode ficar aqui a comer erva. Vamos dar-lhe nome, o AB achou piada, e perguntou e que nome seria. Sem hesitar respondi ‘Páscoa’. O Páscoa lá ficou amarrado mas gritava e gritava. Durante uns bons minutos os três observávamos o Páscoa. O empregado de faca na mão perguntava ‘patrão? Mato?’ e eu sem ser patroa respondi, não. Os verdadeiros patrões deram-me o benefício da dúvida. Bem se ele se calar, disseram. E entrámos para dentro. Mas na sala os ‘méeeee’ eram cada vez mais agudos. Fui lá fora falar com o Páscoa, expliquei-lhe que senão se calasse ia para a caixa branca que faz frio. Fiz festas, cantei ‘todos os patinhos’ (devia ter mudado para cabritinhos) e o Páscoa gritava ainda mais… o AA veio cá fora, olhei com medo, sabia que ia sair derrotada. O AA disse ‘Dra Bety venha para dentro, senhor patraquim (empregado) mate o bicho’. Entrei amuada e ainda resmunguei ‘cabrito não ressuscita’…. O AB que tinha apoiado a minha ideia tentou aliviar o meu amuo com ‘ a culpa não foi tua, foi do Páscoa que não se calou’, pois, disse eu e repeti ‘a culpa foi do Páscoa, não me ouviu’.