Ex-comissário Europeu – Louis Michel

9 Abr , 2013   ,

Louis Michel. Já há algum tempo que não me deparava com uma notícia com o ex-comissário Europeu, o belga Louis Michel. Em 2006, numa aldeia na República Democrática do Congo ouvi durante semanas o seu nome. As estrelas da União Europeia na minha roupa faziam que eu fosse da ‘equipa’ do tal L Michel. Ser da equipa do senhor não era apreciado. As acusações ao senhor eram acompanhadas de gestos irritados, mas nada de grave. Intrigava-me que a pessoa mais humilde soubesse o nome do comissário Europeu – quantos Europeus saberiam o seu nome?
Apesar desta ‘anormalidade’ da obsessão com o senhor… Tudo decorria normal até ao dia das eleições. Nesse dia, as pessoas enfurecidas destruíram as urnas, os locais de voto e, mais uma vez, ouvi o nome do senhor. Desta vez, o nome era dito com gritos e entre empurrões. Nunca o conheci. Nunca o vi… Desde essa altura, leio sempre curiosa o que se escreve e diz sobre o ex-comissário. A imprensa é quase sempre muito simpática com ele… Na Europa, ele é um dos diplomatas mais respeitados para os assuntos de África… Não possuo informação para julgar o senhor… Apesar de, como diz o povo, onde há fumo há fogo… E se não há fogo que se esclareça que é só fumo.


Na altura escrevi: ‘Em Mweka, as eleições começaram normalmente às 5 da manhã, mas na cidade, por volta do meio-dia, todos os centros de voto tinham sido queimados e pilhados… A cidade não tem água, não tem luz. A cidade mais perto fica a cerca de 20 horas de carro. A violência que se prolongou por toda a tarde em Mweka resultou em vários jovens locais feridos, dois deles em estado grave. A polícia congolesa ‘tentou’ controlar a população disparando e perseguindo grupos de manifestantes. Os manifestantes responderam com paus, pedras e catanas. A nossa tenda-escritório foi todo o dia até escurecer a divisão do campo de batalha entre os jovens e a polícia. Cheguei à tenda após ter sido ‘bloqueada’ numa das escolas onde se votava. A população gritava contra o comissário Europeu Louis Michelle… e eu com o meu colete com as estrelas da União Europeia. O motorista que tínhamos improvisado era na verdade um empresário que tinhas uns carros… e ao contrário de enviar o seu empregado de madrugada disse que seria ele o motorista. Percebi depois que ele sabia que alguma coisa ia acontecer. Cercada pela população enfurecida não consegui sair da escola para voltar ao carro. Ele veio em meu socorro. Um homem enorme e grande. Enorme fisicamente e ‘grande’ na cultura Africana, ou seja, importante. Mesmo assim não conseguiu convencer com palavras a população a deixar-me passar. Sem me avisar, colocou-me nas suas costas e decidido carregou-me abrindo aos empurrões e gritos o caminho até ao carro. De cabeça para baixo às costas daquele gigante não escapei aos insultos e a algumas pancadas. Cheguei junto da equipa sã e salva, apenas algumas nódoas negras testemunhavam o episódio. Mas as horas piores foram as restantes. Impotentes, limitámo-nos a ser testemunha da resposta descontrolada da polícia congolesa, que disparava para qualquer lado, e a população não abandonava o protesto. Escureceu. Tememos que fossemos atacados. Conseguimos regressar à Missão Católica. Barricámos portas e janelas. Dormimos todos no mesmo quarto. Praticamente não se falava. Apenas discutíamos o que se dizia em cada telefonema com Kinshasa. O telefone satélite não parava… Kinshasa queria saber mas afinal o que se passava. Os peritos de segurança repetiam mas não é zona de risco….’
http://www.rfi.fr/afrique/20130409-louis-michel-buyoya-louis-michel-centrafrique-kinshasa-francophonie-oif-