A Ex-prisão Política do Tarrafal

10 Mar , 2015   ,

Cabo Verde. A Ex-prisão política do Tarrafal. Anunciado ontem equipa técnica da curadoria. Já vim várias vezes a Cabo Verde. Sabe sempre bem. Não vale a pena fazer inveja ao descrever que aqui as gentes são quentes, a música está nas esquinas e o mar rodeia-nos… Das viagens passadas, tenho um momento, o qual guardo na parte do cérebro que deve ter a tabela ‘não esquecer’- a viagem à ex-prisão política do Tarrafal. Ia nessa viagem o socialista e ex-preso Edmundo Pedro. Era a sua primeira visita à prisão onde passou anos, e onde o seu pai, também prisioneiro, acabou por falecer. Uma prisão que começou no início do século XX com os presos políticos portugueses passando depois a albergar os presos dos movimentos de libertação africanos. Não vou dissertar sobre a história, mas sobre a minha memória desse dia. Salvaguardando que memórias são sempre traiçoeiras e esta visita já foi há mais de dez anos. Mas recordo-me de chegarmos de autocarro ao Tarrafal. Éramos um grupo de talvez cinquenta pessoas. Eu tentei seguir e ler as expressões do ex-preso político Edmundo Pedro. Como é voltar a uma prisão política onde se teve? Não sei. Ele entrou e lá meio emocionado mas mesmo assim a fazer de ‘guia’. Aqui era a minha cela… Aqui era a cela de A de B. Apontava. Falava com intervalos de silêncio, não sei se para se lembrar de algum episódio, se para controlar a emoção. Lembro-me da ‘frigideira’… Uma das torturas da prisão. Fritar o preso. Um buraco no chão com uma chapa de metal. O preso era ali metido.


Hoje vi nas notícias a nomeação da curadoria para o museu do Tarrafal. As prisões políticas são uma das minhas obsessões turísticas. Nos anos em que vivi na cidade do Cabo fui várias vezes à Robend Island onde o Mandela esteve preso, mas muitos outros também, entre os quais o actual presidente Zuma. A visita a esta prisão é guiada por ex-prisioneiros que falam da sua história e do que viveram e viram. Nunca soube se seria justo ou não para estes homens. Perguntei algumas vezes a alguns. Tive respostas diferentes. Uns respondiam resignados que é uma forma de viver a vida, outros explicavam que era a sua ‘vingança ou terapia’. Eu conheço vários ex-presos políticos e fico sempre arrepiada. Penso em mim. Eu que me acho uma democrata. Será que seria uma democrata se não vivesse em democracia? Há umas semanas, um amigo dum dos países africanos escrevia ‘no meu país há democracia sem democratas’. Era uma frase facebookiana e não sei se era o resultado de grande reflexão. Mas a resposta breve é que é possível.
Um estudo de opinião pública na Namíbia dava isso mesmo. E o contrário? Se eu vivesse num país não democrata seria democrata? Não sei. Mas vou religiosamente às ex-prisões políticas e olhos as celas e os cantos e as marcas nas paredes que ali ficaram. Lembrei-me duma conversa que também tive há pouco tempo com um outro amigo africano que me dizia em tom crítico e irônico, ‘ainda andas a tentar salvar o mundo’. Respondi que achava que não. Espantado com a minha resignação tentou animar-me, então faz o que eu e tu temos feito cada um à sua maneira ‘tentamos mudar o mundo de algumas pessoas’. Pois. Os ex-presos políticos e as suas ex-prisões políticas lembraram-me que há pessoas que diferente de mim acreditaram e acreditam que podem mudar o mundo. Tenho inveja.
Ler mais aqui.