Heidi Hollande

Heidi Holland para nos falar de Mugabe

22 Jul , 2013   , , ,

O Zimbábue vai a votos no próximo dia 31 de julho. Preside ao país o nome que mesmo os menos atentos à política africana reconhecem: Robert Mugabe. No poder desde 1980, é dos líderes africanos atuais que mais recebem atenção dos media internacionais. Na maioria dos casos, as notícias não são abonatórias. Mas eu nunca gosto de limitar a história aos bons e maus. A história, porque é o relato da realidade, é sempre mais complicada.  Hoje não irei escrever nem sobre o presidente Mugabe, nem sobre as eleições. Irei escrever sobre uma mulher: Heidi Holland. Já explico…

Integro, desde há uma semana, uma equipa de analistas que acompanha a situação no Zimbábue. Temos alguns elementos em Harare e, aqui em Londres, há uma pequena task-force. Tentamos acompanhar e, afastados da emoção de quem está no terreno, enquadrar, perceber e muitas vezes voltar a enviar questões para quem lá está.

Infelizmente ainda não tenho comigo os meus livros. Mas, mal integrei a equipa, deu-me vontade de ter ao meu lado um dos livros que mais me marcou sobre Robert Mugabe: o livro de Heidi Holland, “Dinner With Mugabe”. Foi-me indicado há uns anos por um amigo moçambicano que me disse “tens de ler o livro”. Já tinha lido algumas biografias de Mugabe e aprendi com todas, mas em todas tinha de dar o desconto da simpatia ou da antipatia do autor pelo Mugabe. No livro da Holland não foi preciso.

O título resulta do facto de a autora ter visto (aliás, ouvido!) Mugabe pela primeira vez num jantar ainda no tempo em que ele era um revolucionário, ex-preso político e, sobretudo, clandestino. A autora era uma ativista por um Zimbábue independente e aceitou acolher em sua casa (ainda no tempo de Smith e portanto correndo ela própria o risco de ser presa, mesmo sendo branca) um jantar secreto entre dois ativistas, um deles famoso, outro um amigo seu. A condição para o jantar se realizar na sua casa era que ela não iria ver o famoso, mas, da cozinha, ouviu-o. Anos mais tarde, reconheceu a voz. Tinha tido em sua casa Robert Mugabe!

O livro escrito em 2008 resulta de Heidi voltar ao Zimbábue para tentar entrevistar Mugabe. Sabia, à partida, que não seria fácil… A tarefa demorou dois anos. Começou por contactar o padre católico amigo de longa data de Mugabe e, ao longo dos 24 meses, conversou com as pessoas mais próximas do presidente e, posteriormente, descreveu as conversas com simplicidade e sem preconceitos. Nos seus regressos à Africa do Sul, onde vivia, Heidi discutia com psicólogos o que tinha ouvido e tentava perceber o perfil do homem Mugabe.

Nestas semanas, sem o meu livro com páginas marcadas e palavras sublinhadas, pensei em voltar a comprar o dito. Precisava de o ter entre os vários relatórios, artigos, números e leis sobre o Zimbábue que me rodeiam. Ontem decidi tentar o ebook e, ao googlar o nome do livro, apareceu a notícia da morte de Heidi Holland. Congelei. Foi em Agosto de 2012. Não me tinha apercebido… O livro dela sobre o Mugabe fazia-me falta, mas ela também. Nunca a conheci, mas, no passado, qualquer momento político zimbabuano tinha a sua análise. Estas eleições de 2013 já não a vamos ter.

Amanhã falarei e escreverei sobre as eleições e sobre o Mugabe e Tsvangirai. Hoje quero homenagear Heidi Holland. Estive a ver um vídeo com o título “memorial Heidi Holland”. A última música no vídeo tem o título de Wheeping (chorando). É de uma banda sul-africana anti-apartheid, Bright Blue. Não podia ter sido escolhida melhor música. Eu não sabia o título da canção, só sabia o refrão: “It doesn’t matter now… It’s over anyhow”. A música é sobre repressão, tristeza, discriminação e foi sobre tudo isto que Heidi Holland lutou contra  toda a sua vida através da escrita.  Se não leu Heidi Holland….há uma parte do Zimbábue que não percebeu.

Pode ouvir-se a entrevista de Heidi Holland aqui.