Lapsos de Memória

16 Fev , 2015   ,

‘Deve ser fantástico conheceres pessoas todos os dias’, seguida de gargalhada, foi assim que uma colega me respondeu quando feliz da vida eu dizia que tinha acabado de conhecer o novo colega Richard, expliquei como o rapaz tinha resolvido o problema com o meu Iphone. O meu entusiasmo foi cortado com a tal frase e com as gargalhadas. Depois de rirem, lá me explicaram que eu já conheci o tal Richard pelo menos umas três vezes… eu não percebi e ele reagiu bem quando eu disse ‘prazer’, mas deve ter pensado que não valia a pena e voltou a dizer ‘igualmente’. Se quiser ver o lado positivo de me esquecer é a frase da minha colega. Nesse caso a vida tem mais cor se todos os dias conheço pessoas, mesmo que para elas seja repetição, pelos vistos para mim não é… Mesmo fazendo um esforço para ver o lado bonito e positivo da coisa, não deixa de ser preocupante.
Tenho pensado nisto ao longo do livro que estou a ler ‘Elizabeth is missing’. Ainda só vou a meio, a personagem principal é uma senhora idosa (com 90 anos) e que está a perder a memória. A escritora (Emma Healey) narra em detalhe o que vai na mente da personagem principal – a Maud. A Maud sabe que não se lembra. Como técnica escreve tudo em papéis. Mesmo não esquecer que a sua amiga Elizabeth desapareceu. Maud está esquecida mas percebe quando fazem sorrisos de gozo sobre a forma como se comporta. Maud percebe quando a filha se cansou que ela se tenha esquecido do que quer que seja. Maud gosta da neta que brinca com ela à frente dela sobre a perda de memória, diz a Maud, ‘brincar com as minhas falhas faz-me sentir normal’.


Não sei se vou conseguir terminar o livro apesar de ser um óptimo livro. O livro tem humor e é daqueles livros que se quer ler e ler… Mas neste caso não sei se consigo. Não que esteja a comparar a minha dificuldade de memória com a da Maud. Mas reconheço várias vezes o seu desespero quando não se lembra. Reconheço quando ela se protege da sua própria fragilidade ao rir-se de si própria. Gosto da Maud e por isso mesmo não sei se vou continuar a ler. Tal como eu, a Maud usa o humor como escudo, no caso dela para a falta de memória, no meu caso para quase tudo – embaraço, medo, indecisão, e até tristeza.
‘Elizabeth is missing’ se não leram, leiam. Quanto a mim vou tentar ler. Mas se não terminar já valeu a pena conhecer a Maud. E registei aqui no facebook, tal como a Maud o faria num papel pela casa que ‘não esquecer que já conheci o Richard e que ele resolveu o problema do meu Iphone’. Emma é uma grande escritora. Este é o seu primeiro livro. Emma consegue que o leitor sofra e ria, tal e qual a personagem. Escrever uma história não é fácil, mas contagiar-nos com as emoções das personagens é uma arte. Well done Emma.

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