Meu texto de apresentação do Livro “O berlinde com Eusébio lá dentro” de Almiro Lobo

18 Set , 2016   , ,

convitepublicoO autor e eu

Boa tarde a todos os presentes e reitero as palavras do Senhor Director de Boas-Vindas à nossa Faculdade.  Fico feliz por ver no público muitos estudantes. Estas obras são registos fundamentais para perceberem o vosso presente, a vossa história.

A função que me foi incumbida é fazer a “apresentação” do livro O Berlinde com Eusébio lá dentro de Almiro Lobo. Antes de ver nos vossos rostos olhares de reprovação, permitam-me pedir desculpas, antecipadamente, pelos eventuais erros no cumprimento desta tarefa.  São várias as razões para duvidar da minha competência para a execução desta tarefa, e espero que, pacientemente, tenham em conta as razões que passo a apresentar.

  • A primeira razão é que fui enganada e enganei-me. Fui enganada pelo autor e pelo Director da Faculdade. Almiro Lobo entregou-me o livro, em Maputo, num encontro de 5 segundos às 6h da manhã, antes de eu partir para o aeroporto. Só tive tempo de pegar no livro e ouvir: “gostava que fosses tu a apresentar”. O segundo que me enganou foi o Prof Alfândega que quando eu disse que não deveria ser eu a apresentar, o Prof exerceu a sua função de Director e deu-me simplesmente uma ordem: ‘é a Elisabete.’ Perante o pedido e a ordem, não tive escolha. Olhei o livro ainda sem o ter lido e vi esta coisa fininha, magra, com uma foto de jovem a jogar à bola, e pensei para comigo: “bem, tão fininho também não pode dar tanto trabalho..” Aqui fui eu que me enganei. Quando lerem o livro vão perceber quanto a magreza do livro engana. O livro é daqueles magros que enganam, que pesam imenso. Já li o livro várias vezes e cada vez descubro mais um pormenor, uma frase, uma imagem.
  • A segunda dificuldade é vencer o hábito de só dizer mal. É que sou professora e investigadora em Ciência Política. No meio académico puro e duro, a regra é dizermos mal. Adoramos nas defesas de teses, de discussão de artigos científicos, apontar os erros… mesmo num tom diplomata. Dizemos do altar da nossa autoimportância: “o colega esqueceu-se do autor X, podia ter desenvolvido mais o capitulo 3”. E nas defesas de teses é muito pior…

Ora, na apresentação de um livro autobiográfico, que é também uma obra literária, à partida, é suposto fazerem-se elogios e dizerem-se coisas simpáticas.  Confesso que esta foi a dificuldade mais fácil de superar. O lado de “professora má” foi vencido, mal comecei a ler o livro. Fiquei fã do livro. Quando se é fã, não existe o risco do “dizer mal”. Menos mau… pensei.

  • Mas voltando à primeira dificuldade sobre a magreza do livro. O livro, apesar de magro, tem 14 histórias. Cada estória com duas, três ou 4 paginas. E, em 60 páginas, o autor pega na nossa mão e leva-nos para Chinde, onde nasceu, depois por vários locais da Zambézia (incluindo Quelimane), Maputo, Niassa (aqui para um local de nome Mepanhira e que, pelos vistos, não vinha no mapa) e Portugal. Quanto à viagem do tempo, o livro inicia nos anos 60 e vai ate aos anos 80.

O autor dá-nos a sua estória e a estória dos que o rodeavam sem filtros. É um livro de memórias, onde o autor partilha os seus medos, as suas duvidas. Não do Almiro Lobo de agora. Mas do Almiro criança e jovem. Uma criança e jovem que viveu a história do seu país, e essa História moldou a sua história de vida.

No tempo, o livro começa no tempo colonial, com o Almiro criança, esse Almiro com menos de 10 anos, que não esqueceu o administrador de Chinde, de nome Manico, que que não queria que nenhum assimilado ‘falasse a língua de pretos e andasse descalço”.  O tal Manico tinha como passatempo andar no seu jipe com um pedregulho e sempre que apanhava um assimilado a não cumprir as suas ordens, divertia-se: “quem fosse apanhado …de chinelos ou descalço, era obrigado a chutar a pedra com muita força. Um jovem negro ou uma negra velha a pontapear e a gritar de dor, o sangue a esguichar dos dedos, as mãos agarradas aos pés, o desespero…”.

Do tempo colonial o autor transporta-nos para as ruas do pós-independência, da construção da ideia do “Homem novo”, enquanto se construía, na verdade, um novo Estado. Almiro Lobo fez (ou faz) parte da famosa geração “8 de março”. Ontem perguntava aos meus alunos de licenciatura, se sabiam o que era esta coisa da geração de ‘8 de março’. Todos em silêncio e com cara de ‘uhmm?’, até que uma das alunas arriscou e disse: “Foram os que, após a independência, o governo tirou da escola e disse: agora vão ser professores. E eles não tiveram escolha”. Estava certo.  A professora Fátima Mendonça, autora do prefácio do livro, foi uma das professoras desta Geração 8 de Março e, nas suas palavras, diz-nos: “Geração de 8 março. Conjunto de jovens, que por decisão governamental, interromperam os estudos secundários e foram em regime de internato preparados para serem professores”.

Como sabem, estes jovens com 17, 18 anos eram depois de uma formação intensiva (um ano) espalhados por todos os cantos de Moçambique para ensinar tudo (português, matemática, biologia, etc). Almiro foi para o tal sítio que nem vinha no mapa. E sobre este período o livro não nos pretende dar aulas sobre esta geração e a sua importância. Não pretende, mas ensina muito mais que se pretendesse ensinar-nos.  Ao contrário da aula, o autor conta-nos com sentido de humor, a história de comerem uma vez por semana a galinha criada por um deles, – comer a galinha cumpria os princípios do socialismo solidário, com o pormenor que para o dono da galinha, tinha que ficar a moela, até ao dia em que alguém violou a regra e comeu a moela:

“Todos cumpriam…um dia alguém resolveu quebrar a regra. O dono da galinha do dia encontrou… generosos pedaços, mas a moela tinha desaparecido” (pp. 44).

Este livro preenche um vazio sobre a vossa história como zambezianos, como moçambicanos e mesmo a mim como Portuguesa. Na história dos países faltam as histórias das pessoas. É um mal geral, mas ainda pior nos países de língua oficial portuguesa. A história dos nossos países, limita-se aos livros de história, e de umas poucas biografias. Mas as poucas biografias que temos, na maioria das vezes, dão-nos só a figura pública e dão-nos muito pouco do homem ou da mulher por detrás da figura pública. Poucos conseguem partilhar os seus momentos de pessoas. Pessoas, humanos, como nós.  E a historia de H grande fica assim limitada à historia de reis, presidentes, heróis, maus, vilões. A história dos outros desaparece.  A história de um país, de um povo, deve ser a soma das histórias dos Almiros, dos Luisinhos, Armando, dos Filipe, Luisas, dos Afonsos, dos Eduardos, como pessoas. De pessoas que como nós que choraram de medo e de alegria, ou de quando crianças acreditaram que dentro de um berlinde estava lá dentro Eusébio…   Este livro O berlinde com Eusébio lá dentro preenche o vazio de não termos livros sobre momentos e pessoas simples, que são  reais e não inventadas.

Não quero com isto dizer que literatura, com as historias inventadas pelos Mias, Pepetelas, Germano de Almeida, Chinua Achebe, não sejam importantes e não nos ensinem.

Este livro está escrito de forma tão leve, tao rica de enredos e personagens, que podia ter sido inventado ou fingido que era inventado. Escrever a realidade é preciso coragem. Todas as personagens do livro existiram e existem. Aparecem com os nomes verdadeiros e o autor tem a coragem de falar de si sem rede, sem censura.  Não por causa de segredos de Estado, mas porque revela coisas banais: o menino que faz dinheiro a enganar os outros, o menino que não vai a tempo à casa de banho, a história de um amor proibido.  É mais fácil escrever sobre um suposto segredo de Estado, do que escrever o dia em chorei na escola primária.

  • A terceira dificuldade é que eu escrevo, como a maioria de nós. Escrevemos. Pegamos em palavras e escrevemos mensagens, ideias, recados … Almiro não. Almiro não escreve. Lamento dizer-vos, mas Almiro Lobo não é um escritor. É um desenhador de palavras.  Ele pega nas palavras e desenha-nos imagens dos lugares, passa-nos as alegrias e as tristezas das personagens como se estivéssemos estado ali, naquele lugar, como se também nós tivéssemos sido amigos do Luisinho. Faz-nos arrepiar quando ele nos fala da sua tristeza ao ver o bebé que morreu à sua frente quando ele tinha 11 anos. Lemos as suas palavras e sentimos um arrepio. Esta capacidade de nos contagiar, de nos fazer viajar para os locais e para os tempos, é a de um desenhador de palavras.

Ao longo do livro somos brindados com frases que nos prendem pela sua beleza. Sublinhei muitas frases porque muitas das frases nos prendem: “A língua pode ser um território de transito, de transações, de intersecções. Afirmam-se e negam-se fronteiras. Negoceiam-se sentidos de pertença. Denunciam-se identidades. Por vezes, é um porto de abrigo” (p.56)

  • Outra dificuldade é a inveja. Tenho inveja de várias coisas do talento. Da memória. Quando lia o livro tentava-me lembrar dos meus 10, 11 anos e não conseguia ter a mesma memória. Cheguei a assustar-me a pensar que tinha perda de memória. Esta esta semana fiquei mais aliviada ao ouvir a entrevista de Almiro Lobo na Rádio Moçambique. Ele diz que, depois dos 50 anos, as memórias da infância e da juventude começaram a aparecer-lhe… Portanto, ainda tenho esperança.

Depois tenho inveja do sentido de humor. O Prefácio chama-se “Falar do passado sem nostalgia”, mas é mais que isso. Transforma partes que poderiam ser contadas rodeadas de drama em momentos de riso. E damos por nós a rir. Como nas estórias que conta sobre as prateleiras vazias e a falta de comida em Moçambique nos anos de guerra. Em vez de nos contar esta parte da história, transforma na história divertida de quando chega a Lisboa e vê numa pastelaria vários bolos e pergunta, a pensar nas senhas, quantos pode comer, e, claro, o homem, responde: “quantos quiser…”! E ele, com medo que essa liberdade de escolha e abundância acabasse, pede todos para comer mesmo ali. Ou quando também em Lisboa, chega a um restaurante e pede uma galinha inteira assada, e o dono do restaurante grita para a cozinha: “chegou mais um moçambicano!”.

  • E a última dificuldade é sentir-me mbava (ladra). Explico: nesta sala estão familiares e amigos quer do autor, quer de muitos dos nomes que aparecem ao longo do livro. E eu nem apareço, como sou estrangeira. Na sala estão pessoas que têm muito mais autoridade e conhecimento para terem feito esta apresentação. Mas aqui resolvi ser eu a enganar o Almiro Lobo. E como na sala temos o professor do professor … pedi ao Professor Manuel Morais (que dispensa apresentações nesta sala) que foi professor de Almiro Lobo para partilhar connosco este momento e falar-nos do seu antigo aluno.

Elisabete Azevedo-Harman

(Professora Associada da Faculdade de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Católica de Moçambique)

Quelimane, 26 de agosto 2016