‘Morte sim, funeral não.’

10 Jun , 2014   ,

Eu gostava de poder guardar na memória as conversas inteiras. Infelizmente, sem a minha permissão, a minha memória edita, corta e selecciona o que guarda de cada conversa. E como as conversas nunca mais se repetem, fico só com pedaços ou das palavras ou dos momentos. Funciona assim para as boas e para as más conversas. Das boas conversas guardo mais ou menos palavra.
Hoje tive uma dessas boas conversas. Eu estive de bloco na mão e escrevi, mas já percebi que a minha memória ignorou as notas e guardou esta conversa no arquivo simplesmente com o nome ‘morte sim, funeral não’. Esse é realmente o nome mais correto para uma conversa no meio de Moçambique e onde o interlocutor de repente e sem avisar diz ‘conheces o poema chileno que diz – morte sim, funeral não’?
A BATALHA CAMPAL (Nicanor Parra)
a coisa começa com um
DESFILE NOTURNO DE ENERGÚMENOS
pelo centro da cidade:
morte sim!
funerais não!
morte sim!
funerais não!
morte sim!
funerais não!


OS ROBBOTS OBSERVAM O DESFILE DE SEUS
CARROS DE COMBATE
e continua no dia seguinte
NA HORA DE MAIOR TRÁFEGO
-entre 1 e 2 da tarde-
SOB UM SOL ABRASADOR
com uma
MANIFESTAÇÃO PACÍFICA DE ENERGÚMENOS
envoltos em lençóis – com tochas e cornetas
EM FRENTE A UMA LOJA DE POMPAS FÚNEBRES.
Na teoria não incomodam ninguém
e de fato não fazem outra coisa que cantar e bailar em época de cumbia ¹
DUAS FRASES QUE REPETEM ATÉ O INFINITO
morte sim!
funerais não!
morte sim!
funerais não!
morte sim!
funerais não!
MAS OS ROBBOTS OBSERVAM ATENTAMENTE
OS ACONTECIMENTOS DE SEUS CARROS DE COMBATE
no terceiro dia
OS ENERGÚMENOS
SE DIRIGEM TRANQUILAMENTE PARA SUAS CASAS
depois de várias horas de baile desenfreado
EM FRENTE À MONEDA
quando aparecem em cena os robbots
e começa a batalha campal
E COMEÇA A BATALHA CAMPAL
E C O M E Ç A A B A T A L H A C A M P A L !