O país “a andar com passo certo para conhecer a felicidade”

12 Jul , 2016   , , ,

Esta terça-feira, a cinco dias de mais uma eleição presidencial, os são-tomenses celebram o dia da independência nacional — foi a 12 de Julho de 1975.

Foi uma independência feita por “guerrilheiros da guerra sem armas na mão”, como se canta no hino do país escrito pela política, poeta e intelectual são-tomense Alda Espírito Santo. O hino, que repete várias vezes “independência total”, regista para a História que a soberania foi conquistada, mas sem armas. No início da década de 1970, as ideias nacionalistas chegavam ao arquipélago pela mão dos jovens estudantes que acompanhavam as notícias das descolonizações no continente africano.

Em 1957, deu-se a primeira independência no continente, no vizinho Gana, liderada pelo líder e nacionalista Nkrumah. É noutro país vizinho, o Gabão, que o Movimento de Libertação de São Tomé e Príncipe se vai sediar, desde a sua criação em 1960 até à independência. A batalha será nos corredores da diplomacia, com a primeira vitória, em 1964, quando a Organização dos Estados Africanos (organização anterior à União Africana) reconhece o Movimento.

Batepa

Sete anos antes de o comité de libertação se constituir, em 1953, as autoridades portuguesas mataram e prenderam centenas de são-tomenses. As próprias autoridades denominaram a operação de Batepa (Bate-pá). O historiador angolano Carlos Pacheco, perante o número de mortes e o nível de violência, preferiu chamar-lhe de Mata-pá.

Já tinha lido e ouvido falar do massacre, mas, se me perguntassem pelo nome do governador, sem googlar não iria conseguir responder.

No ano passado, em São Tomé, o jovem que conduzia o táxi onde eu me deslocava para o centro da ilha parou por sua iniciativa e disse-me com um ar pesado e triste, como se ele próprio que tem pouco mais de 20 anos tivesse visto o que aconteceu há mais de 50, “foi aqui que as tropas portuguesas mataram muitos de nós”. Devo ter feito uma cara do tipo “eu não queria ser dos maus” e ele, com pena, rapidamente me sossegou — “Quer dizer… foi o Gorgulho”. A tal operação Batepa foi sob o comando do governador-geral, o tenente Gorgulho. Gorgulho, o nome que poucos portugueses conhecem, mas que muitos são-tomenses sabem de cor.

Do Desterro a Paraíso

Em Janeiro de 1990, a imprensa portuguesa mostrava o então primeiro-ministro Cavaco Silva, de calções e com um ar feliz a trepar a um coqueiro nas terras de São Tomé e Príncipe.

Numa das minhas visitas a São Tomé e Príncipe, escrevi a uma amiga, não um postal porque já não se usa, mas um Whatsapp com a frase “O paraíso existe e afinal não é preciso morrer para se visitar”. E continuo a achar que é a melhor frase para descrever a beleza das pequenas ilhas.

Esta nossa felicidade (minha, do Cavaco Silva e de muitas outras pessoas) ao visitarmos São Tomé e Príncipe é relativamente recente. O paraíso de agora foi antes um temido desterro. No entanto, as ilhas não mudaram, nós é que mudámos.

A literatura cabo-verdiana, angolana, moçambicana, são-tomense e portuguesa está cheia de exemplos reais e imaginários do país como um desterro. Em 1493, despejámos nas ilhas duas mil crianças judias. O escritor são-tomense Orlando Piedade, no seu livro Os meninos judeus desterrados, pega na história e tenta dar um final feliz a pelo menos uma dessas crianças. No livro, o miúdo de seis anos sobrevive, ao contrário da história verdadeira onde parece que nenhuma daquelas crianças teve essa sorte.

Se passearmos pelas páginas dos livros de Germano de Almeida, Mia Couto, Agualusa, facilmente encontramos exemplos de quem foi ou de quem temia ir para o tal sítio no meio do mar de onde não se voltava. Nem era preciso ir, bastava o medo de se ser enviado. Foi o caso do velho comerciante português Arcénio de Carpo, que grita no livro Nação Crioula de Agualusa: “Esse animal levantou contra mim uma campanha sórdida — quer ver-me preso. Diz a toda a gente que eu hei de ir degredado para a ilha de São Tomé!”.

Uma coisa longínqua

O Arcénio não foi. Mas na vida real foram muitos e muitos. Um dos últimos que Portugal deportou para as ilhas foi, posteriormente, primeiro-ministro e Presidente da República portuguesa — Mário Soares. Nas suas memórias escritas por Joaquim Vieira, Mário Soares dedica um capítulo, com o título “Desterro”, aos oito meses da sua vida ali passados. “Para nós, São Tomé era uma coisa muito longínqua, não se sabia como era. Eu nem sabia bem ao certo onde estava São Tomé no mapa!” diz-nos Mário Soares para percebermos como a vida em São Tomé e Príncipe em 1968 estava longe de ser o paraíso.