O povo congolês já sofreu mais que o suficiente…

13 Jul , 2013  

Más notícias são sempre más notícias… Mas quando leio más notícias sobre o Congo, o meu coração fica ainda mais apertado. No Congo há uns anos fui testemunha do desespero e a revolta da população. Os polícias e os militares dispararam para as pessoas, não para o ar… Pelo menos um jovem foi alvejado, e o seu corpo ficou ali, ninguém o socorreu… Eu assisti impotente… E frustrada porque os polícias, na verdade, estavam a proteger-me a mim e aos meus colegas (observadores das eleições).
Na altura escrevi alguns textos sobre o que vivi e assisti, uns publiquei, outros guardei como diário para minha própria terapia. Num dos artigos que publiquei na altura expliquei:
‘Em Mweka, as eleições começaram normalmente às 5 da manhã, mas na cidade, por volta do meio-dia, todos os centros de voto tinham sido queimados e pilhados. A população acusou a Comissão Eleitoral local e o candidato local à Assembleia Nacional, Mr Bushavou (ex-chefe de gabinete do Presidente Kabila), de fraude. A ‘presença internacional’ em Mweka resumia-se a dois observadores europeus, dois sul-africanos para assistência técnica eleitoral, três polícias das Nações Unidas desarmados e um técnico eleitoral, também das Nações Unidas. O escritório das Nações Unidas era uma tenda com um gerador, onde apenas cabia, uma mesa com o computador e uma impressora. A cidade não tem água, não tem luz. A cidade mais perto fica a cerca de 20 horas de carro. A violência que se prolongou por toda a tarde em Mweka resultou em vários jovens locais feridos, dois deles em estado grave. A polícia congolesa ‘tentou’ controlar a população disparando e perseguindo grupos de manifestantes. Os manifestantes responderam com paus, pedras e catanas. A nossa tenda-escritório foi todo o dia até escurecer a divisão do campo de batalha entre os jovens a polícia…


No dia 31 de Julho, por razões de segurança, fui evacuada de Mweka.
Não deixei nas duas semanas seguintes de manter contacto com os observadores locais, com quem desenvolvi laços de amizade e solidariedade. Em especial, com os padres católicos, onde fiquei hospedada. Os padres e os seminaristas por pertencerem ao pequeno grupo de pessoas na cidade que sabe ler e escrever, quase todos colaboraram nas eleições, quer como membros das mesas de voto, quer na gestão e educação de observadores locais. Foi através deles que consegui ter uma percepção da eleição realizada após a minha saída de Mweka, quando as eleições foram realizadas entre as sete da tarde e as sete da manhã de segunda-feira, numa cidade sem electricidade e com a violência do dia anterior.
Apesar do susto e de ter sido testemunha de violência que até agora na minha vida nunca tinha presenciado, atrevo-me a dizer que o incidente de Mweka desafia o preconceito que o cidadão analfabeto e pobre não pode sabe votar, ou que simplesmente será manipulado. Se já era democrata, mais fiquei.
No dia em que parti, muitos dos habitantes vieram em silêncio despedir-se dos dois ‘brancos’ que partiam. Não escondo que já no avião chorei revoltada e emocionada. Em terra contive-me. Entre os abraços apressados de adeus. Um dos padres disse-me: ‘se partirem agora é que vai haver fraude. A população não está contra vocês.’ Não me lembro do que respondi. Os pilotos sul-africanos gritavam que tínhamos de embarcar rapidamente. Os helicópteros com o novo material eleitoral estavam para chegar e a ‘pista improvisada’ era precisa.’
Se lermos sobre o Congo, mesmo sem nunca ter tido o privilégio de ter lá estado, rapidamente percebemos que o povo congolês já sofreu mais que o suficiente…