Padre Filipe Couto, Primeiro Reitor da Universidade Católica de Moçambique

16 Ago , 2016   , ,

Imagem Padre Couto, 2016

Padre Couto, 2016

construindonovodia

Capa e contracapa do livro “Construindo im novo dia”

Padre Filipe Couto . Guerrilheiro, padre, homem, professor, reitor, autodidata. A sua história cruza-se e encruza-se com a história do seu país e, quando a história não foi ao seu encontro, ele colocou-se no caminho e ajudou a construir a tal história do país através da sua história. Foi o primeiro e o único muitas vezes. Foi o Padre que atravessou a fronteira e o regime e se juntou aos combatentes da liberdade da Frelimo na Tanzânia, foi o primeiro Reitor da Universidade Católica de Moçambique, estudou, ensinou e viveu em vários países.

Fala alemão, suaíli, inglês, italiano e em qualquer das línguas é conhecido por dizer o que pensa sem autocensura. Na língua do seu país, português, insiste em falar a linguagem de um homem simples, apesar de rodeado de livros. Recusou-se sempre esconder-se atrás dos muros de linguagem erudita. “Sou um homem simples”. Ri-se de si próprio, analisa a sua história e a história do seu país com as suas invulgares sabedoria e frontalidade, mas sem se render à subserviência dos mitos da história.

Para escrever estas palavras, telefonei-lhe com o cerimonial que uma figura nacional merece, perguntei se teria algum tempo para conversarmos porque estava incumbida de escrever sobre ele.

Atendeu o telefone e, depois de me ouvir, disse “Por que quer escrever sobre mim?” e eu repeti a razão: conhecia-o e já tinha estado com ele em vários momentos oficiais, mas nunca tinha conversado com ele sobre ele – expliquei. Fez uma pausa e depois disse “Ok, daqui a 15 minutos no café. Sabe qual é?” Lá fui com algum receio da figura pública por quem tinha simpatia, curiosidade, mas a quem também temia pelo seu conhecido temperamento. O encontro foi uma entrevista. Não minha, mas do Padre a mim. Um chorrilho de perguntas. Dás aulas de quê? Pensas o quê deste e daquele? Do Guebuza, do padre tal, do Arcebispo… Respondi sempre a verdade, mesmo quando sabia que ele não ia gostar das respostas. Terminou as questões. Olhou-me como se eu tivesse reprovado, mas tocou-me na mão e disse “bem, gosto de ti, posso conversar contigo. Comes sopa? Vem lá a casa comer sopa.”

Lá fui. Repetiu várias vezes que a casa não era sua e que a única coisa que lhe pertencia eram os livros. Centenas de livros numa casa simples. Havia livros de história, de física, matemática e várias ciências nas prateleiras e espalhados em cima da grande secretária da sala. Estavam suficientemente desarrumados para se perceber que estão uns quantos a ser lidos em simultâneo.

“E piano? Ouvi dizer que é um pianista exímio.” Riu-se mais uma vez e no seu tom ríspido perguntou-me “mas como sabes tu isso?” Algumas coisas soube por amigos dele, mas outras eram o normal conhecimento público sobre uma figura pública. Mas ele reage com espanto ao pensar nele como tal.

Aquecemos a sopa que não tinha sal por imposição da sua dieta. Nesse dia, mais uma vez, o Padre Couto tinha rompido com o ‘politicamente correto’. Decorriam as negociações de retoma de paz entre a RENAMO e o Governo. Com mais de uma centena de segundas-feiras de encontro, os observadores convidados tinham dado uma conferência de imprensa. Desta vez, do pequeno grupo de observadores, coube ao Padre Couto falar para os microfones. Não atraiçoando o seu estilo muito próprio, disse o que muitos pensavam, mas até ali ainda não o tinham dito. Disse com um ar irritado e sem rodeios que as negociações não estavam a resultar e que ambas as partes ali estavam apenas para picar o ponto. Interrompemos a sopa para ouvir o noticiário e vê-lo no ecrã. ‘Vês? Apenas digo o que penso e, pronto, acham excecional” e voltou para a mesa. “O que achaste?” – perguntou-me. Começaram os telefonemas e mensagens de felicitações mas ele não deu importância. As luzes da fama ou o reconhecimento não parecem ser o que o move ou alguma vez moveu.

Agora que era eu que entrevistava, perguntei sobre a condecoração que recebeu da Presidência Portuguesa. Apesar de, desde o início, ter explicado que essa era a razão para escrever sobre ele, não parecia acreditar. “Mas qual condecoração? A da Espada?” Suspeitei que a redução da condecoração da República Portuguesa à expressão “aquela da Espada” podia ser por sentir alguma animosidade por Portugal. E como a conversa seguiu a sua regra da frontalidade, perguntei se tinha algum ressentimento com Portugal. “Como? Não sei onde foste buscar essa ideia! Estive várias vezes com o Ramalho Eanes, quando cá veio no pós-independência, e com o Sampaio, ainda mais. Gostei sempre do Sampaio. O Presidente Cavaco Silva veio cá e condecorou vários reitores. Três, na verdade, e eu fui um deles.” Estava explicado: para ele, não foi o Padre Couto que recebeu a espada, mas, sim o Reitor da Universidade Eduardo Mondlane “que na altura era eu” – riu-se. “Bem, mas agora tens razão: a espada fica minha”. Para dissipar as minhas dúvidas sobre Portugal, disse-me “quando vou a Lisboa sinto-me bem. Tenho um cunhado português. Tenho amigos portugueses.” E, aqui, não escondeu alguma irritação com a minha suposição que poderia ter algum ressentimento com Portugal.

Fugi daquele tema, que já estava esclarecido, e levei a conversa para os anos 60 na Tanzânia quando se juntou aos combatentes da FRELIMO. Nunca abandonou a Igreja nem o Partido. Usou a sua rede internacional para procurar medicamentos e dinheiro para a FRELIMO e guarda orgulhosamente a memória da amizade que tinha com o Samora. “O Presidente Samora Machel chamava-lhe Padre?” Riu-se e parou como se estivesse a voltar a um dos diálogos com o Samora – ”Não, dizia – oh, Couto”. E, para me irritar, a brincar dizia ”esses obscurantistas”. Mas sempre fomos amigos. Mesmo quando os outros camaradas não percebiam o que fazia ali aquele padre.”

Mesmo no pós-independência conseguiu continuar a ter a confiança do Partido e da Igreja. “Porque não deixou de ser padre e passou a ser um combatente? Os tempos não eram fáceis para ser as duas coisas.” Concordou – “Pois não! Mas, sabes, eu tanto ia buscar medicamentos, como varria o chão. Estava entre moçambicanos e por isso estava bem.” Insisti que teria sido mais fácil ter abdicado de um dos lados. “Não teria sido tão útil ao povo”, respondeu. Uma das Irmãs que trabalhou anos com ele resumiu esta estranha compatibilidade com “o que para os outros não era natural, para ele era. O que o move é o povo. As pessoas. E acreditava que tanto a Igreja como a Frelimo eram veículos para o melhor para o povo. Era assim.”

A conversa transformou-se em conversas. E os carateres da sua história ultrapassam em muito o limite destas páginas. Por isso perguntei “O que é que gostava de ler sobre si?” Sem hesitar respondeu “Eu gostava que escrevesses que sou uma pessoa simples… eu fui sapateiro, sabes?” Acrescentei “e o que é que gostava que os moçambicanos dissessem de si?” Pensou e disse “que não tenho rabos de palha agarrados. Gosto que digam isso sobre mim. Sabes que quem me indicou para observador foi a Renamo?” Aqui, sem esconder a vaidade pelo facto de o argumento provar o que dizia, acrescentou: “não tenho nada com a RENAMO, mas deve ter sido por eu ser assim.” Perguntei: ”Assim? Rebelde? Sempre foi assim?” Hesitou e ponderou a resposta. “Talvez por causa do meu pai. Ou talvez porque o meu sangue é uma grande mistura e isso dá liberdade”. Mas interrompeu o seu próprio raciocínio. E a falar para mim e para ele próprio dissertou, levantando a mão como se estivesse a agarrar uma pedra e a fosse deixar cair: “Sabes? Se fazes assim com a pedra a pedra cai e nós dizemos que ela cai para baixo. A gravidade obriga a que ela caia. Mas, talvez, se perguntássemos à pedra ela diria que decidiu ir para baixo.“


Texto da minha autoria e que foi integrado no livro “Construindo um novo dia”, lançado pela  Embaixada de Portugal em Maputo em 2016, às 17h30, no Centro Cultural Português/Camões,

Apresentado pelo antigo Presidente da República, Joaquim Chissano e pelo Presidente do Conselho Constitucional Hermenegildo Gamito, este livro representa a relação entre dois povos e duas nações, levando os leitores a descobrir todas a personalidades moçambicanas que ao longo da história conquistaram o respeito dos diversos Presidentes da República Portuguesa, e levaram Portugal a atribuir o grau de exceção, a condecoração. O livro, que será sempre uma obra inacabada, dá a conhecer de perto as histórias dos diferentes homens e mulheres moçambicanos, que se destacaram nas mais diversas áreas desde a medicina, à economia, às artes, na política e na diplomacia, pelas suas qualidades únicas e pelo percurso que trilharam, merecendo assim o respeito e apreço de Portugal. Com uma abordagem completa sobre a relação especial que une portugueses e moçambicanos, esta iniciativa da Embaixada de Portugal em Maputo, pretende prestar uma homenagem, ao distinguir todas a personalidades moçambicanas que enriqueceram o país, e merecem ser destacadas por tudo aquilo que deram a Moçambique, mas também a Portugal pela inspiração que representam.- See more at: http://www.instituto-camoes.pt/lingua-e-cultura/mocambique-mocambicanos-condecorados-pelo-estado-portugues-homenageados-em-livro#sthash.lRv4KHYQ.dpuf