Prof. Doutor Fafali Koudawo

23 Jan , 2015   ,

10930853_1040873059263039_5103394260821142808_n

Acabo de saber do falecimento do colega e amigo Prof. Doutor Fafali Koudawo. Conhecemo-nos por volta de 2002 ou 2003, em Bissau. Desde aí, mesmo que não falássemos com frequência, íamos sabendo um do outro. Academicamente, Fafali estava entre os melhores cientistas políticos com que eu me cruzei no mundo.
A primeira vez que o conheci, eu era uma estudante de mestrado meia perdida sobre como estudar África. Cheguei a Bissau para ‘trabalho de campo’ e sabia a teoria mas não sabia como fazer a tal ‘investigação’. Ele já professor, recebeu-me com o mesmo respeito e paciência como se eu fosse uma conceituada professora doutorada. Recordo que primeiro falámos num gabinete. Formais. Aproximava-se a hora de almoço e ele convidou-me para almoçar. Com um sorriso de teste perguntou-me se eu queria almoçar onde almoçam os investigadores europeus ou onde o povo almoça.

Lá fomos a uma tasca no meio dum dos bairros pobres. Acho que esta minha escolha foi um teste que passei com sucesso. A conversa entre nós ia desde lições elaboradas de ciência política, a discussões com humor sobre o que se passava à nossa volta. Durante essas semanas em Bissau, deu-me conselhos e livros e encontrámo-nos várias vezes. Num dos encontros-aula, disse-me sempre meio seguro e tímido que íamos a casa dele. Lá fomos. Era uma casa-escola improvisada. Dr. Fafali era do Togo mas adoptou a Guiné Bissau como o seu país, com muito carinho. A casa dele nessa altura estava cheia de crianças. Percebi que a casa mesmo sem mesas e cadeiras era uma escola. As crianças do bairro ali estudavam e ele que podia ser professor em qualquer das melhores universidades do mundo, ensinava o ‘A e B’ com a mesma dignidade e respeito como se estivesse a dar uma aula em Harvard. Sem vaidade mostrou-me a ‘escola’. Passei ali um dia e o tempo voou.

Depois foram anos e anos de correspondência. Uma das vezes veio à Europa e conversámos. Nos corredores duma universidade europeia era um distinto Professor, mas sempre modesto. A última vez que o vi foi no dia do golpe de estado em Bissau, em Abril de 2012. Eu tinha passado a tarde com ele na universidade, onde ele era agora o Reitor. Com o mesmo entusiasmo da casa-escola de há anos atrás, mostrou-me e apresentou-me alunos. Depois fizemos uma sessão de trabalho para escrevermos um livro em conjunto. Discutimos ideias e ideias. Combinámos reunir nos dias seguintes. Saí do encontro e estava a passar na rua da casa do primeiro-ministro, quando as bazucas rebentaram. O golpe de estado tinha começado. Confusão, medo, pessoas a gritar, soldados e a incerteza. O Prof. Fafali calculou pelo percurso que eu tinha sido apanhada na confusão. Nesse dia não conseguimos falar. No dia seguinte, falámos ao telefone e como sempre, aconselhou-me a ficar quieta e acalmou-me. Tinha ficado preocupado comigo, mas disse que sabia que estava bem. Eu queria voltar a ir ter com ele… Ele disse que não. Nestas alturas quanto menos movimento melhor, disse. E no final do telefonema riu-se e disse, teremos muitas oportunidades para falar e trabalhar… Não tivemos. Morreu hoje. Perdi um dos académicos por quem tinha mais respeito. A imagem e o entusiasmo dele naquele dia, na pobre casa que era também escola improvisada, foi sempre a minha imagem dele. O melhor livro sobre a transição política em Cabo Verde e na Guiné Bissau é da sua autoria.
A Guiné Bissau hoje ficou mais pobre, mas também a ciência política.
Eu queria estar em Bissau para apresentar os meus pêsames à família e amigos.