Quando é que me sinto europeia?

11 Set , 2013   ,

A pedido dos organizadores do debate da FFMS, ‘Portugal Europeu e agora?’ que terá lugar em Lisboa, nos dias 13 e 14 de Setembro, escrevi esta nota em resposta à questão ‘Quando se sente europeu?’.
Quando é que me sinto europeia? Muitas vezes e há muito tempo. De tal maneira que a pergunta até me pareceu estranha. Foi como se me perguntassem desde quando é que me sinto portuguesa. A identidade europeia há muito que coabita lado a lado com a minha identidade portuguesa. Quando atingi a idade adulta, Portugal já era membro de pleno direito da Comunidade Europeia. Como estudante universitária viajei por uma Europa já sem fronteiras, apesar de na universidade os programas de intercâmbio estudantil, como o Erasmus, estarem ainda ou no seu início ou ainda não existirem.


Das fronteiras europeias tenho apenas uma memória distante e cada vez mais nebulosa. Recordo-me de, em criança, atravessar a fronteira para Espanha. Ao escrever este texto percebi que já nem me recordo dos guardas de fronteira, não me recordo das suas fardas, nem do que pediam. Lembro-me de se esperar numa fila de carros e recordo-me de ter medo dos tais guardas. Receava que me roubassem os caramelos, não porque alguma vez tivesse testemunhado qualquer incidente mas porque essa era a história que ouvia dos adultos. A verdade é que a travessia me atormentava e eu escondia na roupa os doces dos tais guardas de que não me lembro. Hoje, a ausência de fronteiras é de tal maneira um facto natural que já não me faz sentir europeia.
No ano em que o Euro foi introduzido fiz a passagem de ano em Berlim, com amigos alemães. A festa invadia as Portas de Gotemburgo, como se Berlim nunca tivesse vivido dividido entre o Leste e o Ocidente. Recordo-me do símbolo do Euro aparecer à meia-noite gigante e luminoso e da euforia que provocou nas pessoas. Lembro-me de nessa noite discutirmos entre nós como seria a vida com o Euro. Como seriam as nossas moedas? Seríamos capazes? Nessa altura, ao contrário do tempo presente, podia haver dúvidas, mas havia confiança no futuro. E com o vinho quente com açúcar e canela lá se celebrou o tal Euro e o novo ano.
Nos últimos anos vivi alguns períodos fora da Europa. Vivi nos Estados Unidos, na África do Sul e na Suíça. Nestes países só me podia sentir europeia, já que essa era muitas vezes a primeira identidade que me atribuíam. Em 2002, quando cheguei aos Estados Unidos, levava comigo o livro da Natália Correia ‘Descobri que sou Europeia’. Revi-me nas suas descrições das diferenças culturais, sociais e políticas. Mas para mim não foi uma descoberta, foi uma confirmação – eu já era, para eles e para mim, europeia. Esta minha convicção de que sou europeia não invalida que me sinta longe e distante das instâncias europeias. Por exemplo, apesar de, quando integro missões de observação eleitoral europeias usar uma camisola com o símbolo europeu, tenho dificuldade em dizer de repente o nome da ‘nossa’ Alta Representante da UE para os negócios estrangeiros europeia. Dos comissários europeus sei dizer um ou dois nomes. Mas mesmo assim sinto-me europeia. Quando oiço dizer que a Europa foi feita Top-Down, não discordo. Mas o resultado parece ser que o Top se manteve distante, burocrático, mas nós, os europeus, passámos a ser um povo. Ao que parece, ‘sem rei nem roque’, mas somos um povo e eu gosto de ser deste povo.