Preço de sorrir nos hotéis de luanda

30 Abr , 2017   Video

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Descobri que sorrir parece ser um problema nos hotéis. Entro na sala do pequeno-almoço e passo pelo ritual de dizer o número do quarto. O senhor que me pergunta é o mesmo há muitos dias..eu sou a mesma exactamente na mesma quantidade de dias e todos esses dias tenho que dizer e muitas vezes repetir o número quarto que é o mesmo número exactamente na mesma quantidade de dias em que eu e o senhor da porta temos este diálogo.
Hoje acordei rabugenta. Não me apetecia ter o demorado ritual do número do quarto. Mas não!
Hoje voltou a pedir e pediu para repetir. Sentei-me de maneira a observar a porta. E a minha suspeita era real. muitos dos outros clientes passavam sem ser interrogados. Os clientes ( são quase todos homens de negócios ou pelo menos parecem) passam e sentam-se sem ser preciso trocarem uma palavra com o fiscal da porta. Perguntei a um dos empregados porquê que eu era alvo de interrogatório todo santo dia… e veio a resposta ‘é que a senhora é simpática’ , – simpática ?!!! explicou que é porque chego a sorrir.
A maioria dos outros não, chegam de cara de poucos amigos.
Ora bolas!! Sorriso tem preço! Mas prefiro continuar a responder ao interrogatório e continuar a sorrir.
( e cá estou a escrever e a rir de mim própria num hotel em luanda)

Benguela. Angola. 18h10 do dia de ontem.

8 Mai , 2014  

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Irei tentar registar assim o momento. Por regra, as minhas memórias não têm o dia, nem o ano e muito menos a hora. As minhas memórias são alérgicas à precisão do tempo. Recordo pessoas, frases, conversas, olhares, alegria, tristeza, mas a medida do tempo quase sempre desaparece. Ontem às 18h10, estive a comer maracujás no quintal da casa duma pessoa amiga. Liberta dos sapatos com os pés no chão e sentada ao lado duma cesta de maracujás, estava preparada para começar a saborear a conversa com o meu amigo. Conhecemo-nos há anos na Europa. Nunca lhe tinha perguntado, mas agora aqui na sua terra e no seu quintal perguntei como é que foi a viagem para a Europa. E veio a resposta, precisa com as horas e os dias.
Foi uma longa conversa com muita hora e dia, mais ou menos assim – ‘No dia x de 1991, bem cedo, antes das cinco da manhã, parti da aldeia. O meu pai achou que os mais velhos deveriam vir pra cidade. A guerra começou, a minha mãe e três irmãos já não puderam vir… Depois em 1994, tivemos x dias em que se pensou que a paz tinha chegado. Não chegou… Depois no dia x do mês x de 1999, parti para a Europa. Cheguei a Luanda às 14h50, o voo era só às 23h40… Fiquei no aeroporto. Pensei que não ia passar. Passei. Quando cheguei à sala de embarque não havia ninguém, pensei que algo estava errado. Só às 21h30 chegou outro passageiro. ‘ Por vezes a busca da hora exata era discutida entre ele e a sua memória e para que a contagem fosse precisa, as horas eram contadas pelos dedos. Fisicamente não saímos dos nossos lugares, mas foi uma longa viagem. Os nossos movimentos limitaram-se a apanhar os maracujás. Mas sem sair do quintal viajei desde a sua aldeia até às ruas europeias e segundo o relógio, só regressámos ao quintal mais ou menos às 20h35, quando chegou a fome do jantar.

Escritores angolanos

3 Mai , 2014  

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Uma das recompensas de se viajar em África é poder comprar livros dos autores locais. Infelizmente, muitos destes livros ainda não passam as fronteiras.
Esta semana em Luanda, li a banda desenhada de Armando Eduardo, um livro de ficção e outro de crónicas do Luis Fernando. Hoje não resisti e voltei a ler o clássico, ‘O ministro ‘ de Uanhenga Xitu. As palavras destes escritores angolanos de gerações e tempos diferentes são autênticas aulas catedráticas sobre as gentes do seu país. Quer de ministros com ou sem aspas, como escreveu Uanhenga, quer dos recém-empresários da atual Angola como o Sr. Alegria da Costa, personagem do livro ‘Clandestinos no paraíso’ de Luis Fernando.
Estas e as outras personagens destes livros partilharam comigo, através das suas vidas inventadas, como são as vidas reais dos outros.

Faleceu Mendes de Carvalho ‘Uanhenga Xitu’

13 Fev , 2014  

Escritor e político angolano. Combatente pela independência do seu país.
Em 1959, foi preso pelo regime português e desterrado para o Tarrafal. Na prisão conseguiu escrever contos e um dos seus mais importantes livros, Mestre Tamoda. Nas suas próprias palavras ‘A obra publicada de Mestre Tamoda, como algumas vezes expliquei aos leitores, foi escrita na cadeia, onde a vigilância e busca dos guardas e da parte de outras entidades prisionais era constante.’ (Texto disponível no site dos Escritores Angolanos)
A literatura angolana e africana ficou mais pobre com a sua morte.

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‘…o que mudou?’

15 Mai , 2013  

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Entrevista da rfi com o líder da terceira força política em Angola, Abel Chivukuvuku. Hoje assisti à sua intervenção em Londres, na audiência estava Margaret Joan Anstee, que foi a representante do SG da ONU em Angola nos anos 1992/93.
Margaret Anstee, hoje com cerca de 80 anos, apareceu bem disposta e curiosa. Uma das suas perguntas ao Chivukuvuku: ‘ da última vez que nos vimos, o Abel estava numa cama de hospital em Luanda e com as suas pernas feridas… Hoje são as minhas que começam a fraquejar… (riu-se) mas lembro-me que me disse que nunca mais iria fazer política. O que mudou?’… Ele agradeceu a ajuda dela para que na altura tivesse tido permissão para sair de Angola para tratamento, e depois, respondeu ‘nessa altura pensava que ia morrer e por isso não ia fazer política’. Muito mais foi dito…

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