Bissau. 22 Abril 2012

22 Abr , 2012  

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Um dia antes de regressar a Lisboa. Cheguei a Bissau, antes do início da segunda volta das eleições presidenciais. Na primeira volta Carlos Gomes Júnior (Cadogo) teve 49% e Koumba Yala 23%. No entanto a segunda volta era recusada pelos cinco candidatos mais votados a seguir ao Cadogo. Na semana do golpe de Estado, todos os dias, a sociedade guineense ouviu nas rádios declarações dos variados actores políticos /militares.
No dia 9 de Abril, segunda-feira, pelas 9h00, tudo começava com uma conferência de imprensa do Estado Maior das Forças Armadas da Guiné Bissau, onde o Tenente-Coronel, Daba Na Walna, acusou o governo de Angola, em conjunto, com o governo da Guiné, de estarem a violar /atraiçoar o acordo de bilateral de cooperação técnico militar. Daba explicou que não se poderia chamar cooperação técnica a chegada de tanques, uma força especial… Disse também que o embaixador de Angola a 20 de Março terá pedido uma reunião com o Chefe de Estado Maior das Forças Armadas, General Indjai. Nesta conversa o Embaixador de Angola, nas palavras de Daba, perguntou ao General guineense se estava a preparar um golpe de estado. Terminava a pedir a retirada da missão de Angola da Guiné (a parte duvidosa no entender dos militares). Tudo isto foi transmitido em português e em kriol nas várias rádios e televisão.

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Bissau, Domingo, 7h00

22 Abr , 2012  

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Despertei com o nascer do dia e fui caminhar pela cidade. Aos poucos as pessoas começam o seu dia. Passei em frente da casa do Primeiro-Ministro Carlos Gomes Júnior onde desde o golpe de estado têm estado uns militares de vigia, disse o meu Bom dia e recebi de volta o mesmo. Continuei pela Avenida Amilcar Cabral até ao Porto. No caminho por ser ainda cedo e domingo, quase que só vi os militares que guardam os ministérios e os bancos. Ali estão com um ar de quem não dormiu, sentados, e às vezes fico com a sensação da sua surpresa em passar por perto e dizer Bom dia. Respondem sempre.
Mas o meu encontro favorito foram estas quatro crianças, que todas bem vestidas, também desciam a avenida. A mais pequena de saia de cetim rodada caminhava e dava uns rodopios para ver a roda que a saia fazia. Em pleno golpe de estado quatro crianças caminham na direcção da Catedral. Entraram pela porta do lado e depois a mesma menina abriu o portão. Fiquei ali a conversar – e lá me explicaram que a missa das crianças seria às 8h30. Faltava ainda pelo menos uma hora. Sentei-me nos degraus da catedral a admirar a avenida. Dali sentada, os únicos adultos à vista eram os poucos militares e estas crianças.:””

‘Mas tudo passa, Tudo Passará.’

20 Abr , 2012   Video

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Bissau, 20 de Abril
Durante Recolher Obrigatório.
Já ninguém sabe muito bem se ainda há ou não recolher obrigatório, mas pelo sim pelo não, cá se vai se fazendo às 21h30. Na minha rua as pessoas estão à frente das suas casas a conversar, a beber, a rir, a comentar o que se passa no país e pelo meio, como obrigatório, fala-se sempre do Benfica. Aqui onde estou, as almas que me rodeiam apresentaram-me aos cantores Márcio José (canção: O telefone chora), Nelson Ned (canção: Tudo Passará) e Nilton César (canção: Espera um Pouco). Vale-nos o youtube e estas dinossauras músicas melodramáticas para sobreviver durante o recolher obrigatório. Foi preciso esta situação para descobrir quem cantava canções, das quais eu afinal sabia parte das letras. Bem diz o povo, quem canta seus males espanta. Fica a receita se se está por aí em qualquer lugar, em recolher obrigatório, durante um ongoing golpe de estado é aconselhável ouvir estes senhores. Lava a alma e faz-nos sorrir. Como só posso escolher uma, aqui fica uma delas sem qualquer ordem de preferência, não olhem à letra só ao título – Mas tudo passa, Tudo Passará. 🙂

Bissau, 20 de Abril

20 Abr , 2012  

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Ontem existiam nomes de transição, hoje nem por isso. Mas, antes de qualquer precipitação de análise ou interpretação negativa, leiam na totalidade o take da Lusa.
Bissau, 20 abr (Lusa) – Serifo Nhamadjo, primeiro vice-presidente da Assembleia Nacional Popular da Guiné-Bissau negou hoje ter sido convidado para ser o Presidente interino do país e que a Assembleia tenha sido dissolvida.
Serifo Nhamadjo falava precisamente na Assembleia Nacional, onde se encontrou com os militares que fizeram um golpe de Estado na semana passada, chefiados pelo porta-voz do Comando Militar, Daba Na Walna. À saída do encontro, Daba Na Walna também disse que a Assembleia Nacional não foi dissolvida. Num tom apaziguador disse que o respeito pela lei são ‘arranjos que se podem conseguir’, acrescentando: ‘estamos a procurar soluções, não precisamos de nenhuma força no país, que não está em guerra’ (sobre o eventual envio de uma força internacional). Serifo Nhamadjo, que disse estar a falar como presidente da Assembleia em exercício, e explicou que a reunião com o Comando Militar serviu para iniciar uma reflexão.
‘Como devem calcular, depois de todo esse levantamento ficámos refugiados, acompanhando pela imprensa. Depois do anúncio de ontem que se deu na imprensa, sem prévio conhecimento, pedimos encontro urgente para saber porquê’, disse Serifo Nhamadjo.

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Hastear/arriar da bandeira

19 Abr , 2012  

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Bissau, 19 Abril.
Hastear/arriar da bandeira. Na terça à tarde estava na Praça dos Heróis (que se vê na foto). Num dos bancos de jardim estavam cinco jovens, que quando passei começaram a falar sobre a situação política. Faziam parte dos jovens que nos primeiros dias se tinham manifestado pela paz. Bem-dispostos, estavam a contar o que fizeram e porquê que o fizeram. De repente, num ápice, sem eu perceber a razão, estavam todos em pé, em sentido. Eu ia afastar-me e um deles diz entre dentes, como se até o mexer dos lábios fosse proibido ‘Não se mexa, é o hastear da bandeira’. Vi então que em frente ao palácio decorria a cerimónia diária do recolher da bandeira. Fiquei quieta. Reparei que os carros também pararam e as pessoas saíam dos carros e ali ficavam em sentido. Terminada a cerimónia, que dura uns minutos, volta tudo ao normal. Na minha ignorância perguntei se tudo aquilo era devido ao golpe de estado, pergunta estúpida… Um dos jovens que até ali tinha dito o pior dos militares, respondeu-me até com alguma altivez ‘minha senhora, a bandeira é um símbolo nacional, há que mostrar respeito!’. Despedi-me e continuei, mas sorri. Não deixava de ver alguma ironia no que juntava os jovens com farda dos jovens sem farda – a bandeira nacional. No dia antes, os sem farda tinham corrido a fugir dos que tinham farda e agora ambos ali estavam com o mesmo orgulho, a partilhar do mesmo sentimento e respeito pela sua terra.

O país tem sido como o palácio em ruínas…

19 Abr , 2012  

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Bissau, 19 Abril, Manhã.
Caminhei pela cidade e lá fui dizendo o Bom dia da praxe e obrigatório. Conversei com os militares que guardam os bancos, ainda fechados, mesmo depois da ordem de abertura decretada ontem pelo comando Militar. Depois de andar umas horas, não resisti e sentei-me no café da Praça dos Heróis, pedi uma água fresca e olhei em frente para as ruínas do palácio presidencial que foi bombardeado em 1998. Puxei do meu bloco de notas e escrevi: olho o palácio bombardeado em 98, entre as ruínas no telhado vejo três chineses que continuam as obras de recuperação. Esta imagem não é apenas uma descrição poética para um início de um texto. É na verdade uma boa imagem do que tem sido o país e a relação com a(s) comunidade(s) internacional e a Guiné, e entre guineenses e guineenses. Falta de confiança entre militares e militares, entre militares e políticos, entre políticos e políticos, entre a comunidade internacional e a Guiné, entre partes da comunidade internacional e outras partes da comunidade internacional. O país tem sido como o palácio em ruínas… Em que se vão fazendo operações de recuperação de uma parede, ou parte do telhado. E em cada operação anuncia-se que desta vez é que é. Um país com o mosaico étnico/político/regional não pode ser um país de exclusões, tem que ser de inclusões. Não ajuda rotular-se uns de heróis e outros de vilões. E mesmo que ajudasse, não seria essa a verdade. Claro que escrever isto é fácil, fazê-lo é que nem por isso.

‘Depois das nuvens há sempre um milhar de sóis’

17 Abr , 2012  

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Bissau, 17 Abril, 9h00.
Já temos quatro dias de golpe de Estado. Nestes dias apanhei alguns sustos, a começar com os tiros no final de tarde de sexta quando tudo começou. Já vi manifestantes a correrem a fugir de militares. Já conversei com soldados e, numa das conversas mais longas, um jovem soldado disse-me com olhos tristes que em caso de violência eles são também vitimas… Já ouvi e vi uma mulher com lágrimas nos olhos a dizer que ia sair de Bissau porque estava cansada, que a mulher e os filhos sofrem sempre – que está cansada de armas.
Eu confesso que em muitos momentos fiquei triste, emocionada, mas as lágrimas essas ainda não se tinham mostrado. Hoje sim. Hoje escondi as lágrimas no Hospital Principal de Bissau, não pela pobreza, ou pelos doentes, mas pelos jovens guineenses que espontaneamente se organizaram e todas as manhãs estão a levar comida aos doentes. Não são portugueses, não são americanos, são jovens quadros guineenses de classe média com empregos e carros, que poderiam estar nas suas casas ou terem tentado partir, porque estes poderiam voltar a Portugal ou ao Brasil, onde estudaram. Mas não. Há muitos anos que memorizei um provérbio indiano que diz ‘depois das nuvens há sempre um milhar de sóis’. Neste caso temos as nuvens mas também temos os sóis, estão aqui, são estes guineenses. Chamam-se Amigos de Boa Vontade… Trocam sms e agora no facebook, fazem as sandes, trazem água. Enquanto falava com eles outras pessoas iam chegando com donativos, farmácias, supermercados. Eu hoje tive lágrimas, mas foi culpa dos ‘sóis’.

Bissau, 16 Abril.

16 Abr , 2012  

Fim da manhã.
Três dias após o golpe de Estado. As ruas de Bissau estão calmas. Militares em alguns pontos da cidade para evitar manifestações que tinham sido anunciadas. E para já espera-se a tal delegação ECOWAS.

Bissau, fim da tarde…

14 Abr , 2012  

Comecei a escrever este post…e parei. Os dedos hesitam em escrever e o meu cérebro está bloqueado de tristeza. O noticiário da RDP abriu esta tarde a anunciar que Portugal estava já a enviar fragata, avião… Percebo que a ideia seja acalmar os portugueses, e se calhar acalma, sei lá eu!… O que eu sei é que os guineenses, as pessoas comuns, ficam mais assustados e preocupados. Desde o anúncio, sendo portuguesa, dói-me estar ao lado de um amigo guineense. Percebe-se pelas mensagens da CPLP e da CEDEAO que a posição internacional está irreversível e não negociante. Podem explicar-me com todos os manuais de Relações Internacionais do Mundo que estas são as regras – eu não as entendo. Uma posição de não diálogo com os militares de um país (sejam eles maus ou bons) pode sempre levar à irracionalidade. E a irracionalidade nos gabinetes e quartéis pela Europa, ou na Nigéria, Luanda ou Etiópia não sai cara, mas aqui o preço pode ser muito caro – são vidas humanas. Espero que os diplomatas, especialistas, militares aí pelo mundo não justifiquem a sua irracionalidade com a irracionalidade dos outros.

Bissau 9h00.

14 Abr , 2012  

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Nas ruas o povo voltou a vender e a comprar. Esta vendedora ao ver a máquina pediu-me para tirar foto para dizer lá em Lisboa à sua família ‘que ela está bem’.