Bissau 21h00. Recolher

13 Abr , 2012  

Cansados recolhemos. Recolhidos pelo contexto e para respeitar o recolher obrigatório decretado pelos Militares. Espero não escrever mais nenhum post esta noite.

Bissau 18H00. Noticias

13 Abr , 2012  

Se percebi bem…Militares dizem que Primeiro-Ministro e Presidente estão detidos mas vivos. Políticos e militares reuniram para começar a negociação de um governo de unidade nacional, uma reunião rápida apesar de ter tido a participação de muitos militares e políticos.

Bissau 16h00. Silêncio

13 Abr , 2012  

A rua está vazia como se fosse um estúdio de Hollywood abandonado. O céu está cinzento e corre uma brisa. Se tivesse que escolher o cenário para um país pós-golpe de Estado escolheria este mesmo. Um grupo de mulheres sentadas à porta das suas casas, não falam,olham para a rua vazia. Não passam nem carros nem pessoas. Espera-se em silêncio, ao minuto, a reunião entre os partidos e militares, convocada por estes para as 17h.

Bissau 12h30. Olhos tristes

13 Abr , 2012  

Estivemos sem luz e internet… Mas isso voltou. Esclarecimentos é que não existem. A incerteza faz aumentar a tensão nos rostos e nos olhares. Diz-me uma senhora guineense que desde o 7 Junho (1998) já passou várias vezes por situações idênticas. Infelizmente o hábito do medo não cria imunidade ao medo, ele persiste – pode não haver surpresa mas o medo, esse insiste e o sintoma mais visível são os olhos tristes.

Bissau 9h05. O ambiente

13 Abr , 2012  

Converso com um homem velho e uns jovens. Uma conversa debaixo de uma árvore como se estivéssemos a falar sobre o tempo… Diz-me o homem velho ‘nós somos mais que eles, mas não temos armas’. Pergunto para onde vão as pessoas que passam para baixo e para cima à nossa frente, dizem-me que uns estão a tentar ir ainda vender qualquer coisa, os outros estão a tentar perceber o que se passa. Não têm medo? Pergunto eu… ‘Temos mas também sabemos que nós não somos quem eles querem…’ acrescenta um miúdo, às vezes podemos ser apanhados porque não nos controlamos e insultamos os militares. E ali ficámos a olhar quem passava em silêncio como se fossemos uns velhos amigos. Recolhi a casa, quando voltar a sair vão estar ali outra vez.

Bissau 9h00. O comunicado

13 Abr , 2012  

Ouvimos o primeiro comunicado do Comando Militar. Pedem à população para não se envolverem e manterem a calma. Não dão explicações, só dizem que apenas responderam a uma tentativa por parte de governo guineense de negociarem conspirativamente uma intervenção militar dos Angolanos.

Os meus posts ao longo do Golpe de Estado na Guiné Bissau

13 Abr , 2012  

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12 Abril 2012

Tiros e confusão em algumas ruas de Bissau. Eu estava dentro do carro na Avenida dos Combatentes vinda da Universidade Colinas de boé. Era cerca de 20h30 aqui em Bissau já noite escura. De onde estava não ouvi os tiros mas começávamos a ver centenas de pessoas a correr desnorteadas a fugir da cidade. De repente sem espaço os carros, os táxis, os toca toca começaram a fazer a inversão de marcha. As pessoas passavam entre os carros e gritavam em Kriol os militares estão na casa do cadogo. O motorista manteve a calma. Gritava de carro para carro para saber o que se passava. As rádios nacionais deixaram de emitir.

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Bissau 7h30. O despertar…

13 Abr , 2012  

A cidade começou a acordar. Começam a ver-se alguns carros. Na rua da casa do Primeiro-Ministro (Cadogo) já se pode passar. A casa dele foi atacada ontem, agora está vazia e alguns jovens aglomeram-se à porta. Passa um carro de militares e os miúdos fogem, mas não deixam de gritar ‘ladrões, cães’. Os militares não pararam, continuaram, e os jovens voltaram a ficar a olhar com um ar triste o portão da casa. No quintal vê-se o cão morto a sangrar, vidros no chão e uma parede destruída com alguma coisa que não foi de certeza só um tiro. Ainda não há rádios.

Bissau 4h00 ‘O que vamos encontar amanhã?’

13 Abr , 2012  

Dormi umas horitas. Acordei com um telefonema de um amigo político de Moçambique a perguntar ‘onde estás – estás bem?’ Estou, respondi a tentar lembrar-me onde estava… A cidade ainda está escura e em silêncio. No meio de um turbilhão de um golpe de estado ou de contra golpe de estado continua-se com internet – como dizia ontem aqui, os militares fecharam as rádios e as TVs mas não a internet. Pelos vistos a internet ainda não vem no manual dos passos a dar num golpe de Estado, aliás também não se sabe se estamos a assistir a um golpe de Estado porque até agora também não houve a clássica mensagem na rádio de quem quer que seja. Os golpes de estado que abundaram em África na década de 80 e os que ainda vão por aí acontecendo têm normalmente um comunicado ao povo. Aqui não. O dia vai nascer e passo a passo e a medo, os guineenses vão tentar perceber o que afinal está a acontecer – onde está o Primeiro-Ministro e o Presidente? Quem comanda os militares que estiveram (e ainda devem estar) nas ruas, entre quem foram os tiros? Houve feridos?
Desde que cheguei que oiço guineenses com os guineenses, os guineenses com os outros e os outros com os outros a falar a toda a hora se iria haver ou não um ‘golpe’. Assisti a grandes análises e a grandes elaborações. Por parte de políticos e jornalistas ouvi sobretudo ‘Já não vai haver nada’. Mas de todas as grandes análises especulativas havia só uma verdade consistente e repetida, quer pelos ‘informados’ quer pelo povo – ‘a haver alguma coisa fica-se sempre uma noite inteira em que não se dorme e com medo do que vamos encontrar na manhã’. Essa parte da análise foi até agora a única certeira.

Bissau: Tiros e Confusão

12 Abr , 2012  

Tiros e confusão em algumas ruas de Bissau. Eu estava dentro do carro, na Avenida dos Combatentes, vinda da Universidade Colinas de boé. Eram cerca de 20h30 aqui, em Bissau, já noite escura. De onde estava não ouvi os tiros, mas começámos a ver centenas de pessoas a correr desnorteadas a fugir da cidade. De repente, sem espaço, os carros, os táxis, os toca toca começaram a fazer a inversão de marcha. As pessoas passavam entre os carros e gritavam em Kriol, os militares estão na casa do Cadogo. O motorista manteve a calma. Gritava de carro para carro para saber o que se passava. As rádios nacionais deixaram de emitir. No meio da confusão não tive tempo para ter medo, tive medo pelas crianças que tentavam acompanhar os adultos mas que podiam ser atropelados com os carros todos a fazer as manobras mais estranhas no pânico de fugir. Conseguimos fugir por bairros e cheguei a casa. A embaixada Portuguesa pede a todos os cidadãos para permanecerem em casa. Por enquanto ainda há comunicações mas devem estar a ser cortadas. Esperemos que seja mais fumo que fogo, para bem de nós e para bem da Guiné Bissau.